A Polícia Técnico-Científica produziu mais de 20 laudos periciais em menos de um mês; resultados embasaram o pedido de prisão ao indicar que Gisele Alves foi assassinada.
O tenente-coronel Geraldo Neto foi preso na manhã desta quarta-feira (18), em São José dos Campos, no interior de São Paulo, após um mês de investigações conduzidas pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar. Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça no dia 18 de fevereiro, no apartamento onde o casal morava, no Centro de SP.
Inicialmente tratada como suicídio, a versão foi descartada pela investigação. Neto foi indiciado por feminicídio e fraude processual.
A Polícia Técnico-Científica produziu mais de 20 laudos periciais em menos de um mês. Os resultados embasaram o pedido de prisão ao indicar que Gisele foi assassinada. Veja os principais pontos apontados pela perícia:
1) O disparo foi feito de baixo para cima, com o cano da arma encostado na cabeça

2) Não foram encontrados vestígios de pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo Neto
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3) A posição em que Gisele foi encontrada (caída e segurando a arma) é considerada incomum em casos de suicídio — o mais provável seria que a arma fosse solta após o disparo
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4) Gisele estaria na sala, de costas pra varanda, quando foi abordada por trás: o tenente-coronel teria imobilizado o rosto dela com a mão esquerda e apontado a arma com a direita
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5) A vítima tentou desviar a cabeça para a esquerda: o movimento de defesa deixou marcas de unhas e dedos no rosto. O disparo ocorreu nesse momento, e o sangue atingiu o vidro da varanda e a parede, formando uma “área de sombra” compatível com a mão do atirador
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6) O sangue escorreu pelo ombro de Gisele e mudou de direção quando o corpo foi colocado no chão, passando a atingir a região do peito
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7) Já com a vítima no chão, o tenente-coronel teria colocado a arma na mão direita dela e soltado sobre a poça de sangue, e o impacto provocou respingos no rack da sala
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8) O laudo apontou a presença de vestígios de sangue na bermuda usada por Neto no dia da morte da PM. Após a aplicação de reagente químico, houve reação positiva, em padrão compatível com gotejamento, indicando possível contato com sangue
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9) O pedido de socorro à Polícia Militar foi feito 29 minutos após uma vizinha relatar ter ouvido o disparo
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10) Em depoimento, Neto disse que estava no banho no momento do tiro, mas foi encontrado com o corpo seco pelos socorristas. Depois, tomou banho novamente, mesmo após orientação contrária de policiais. Antes disso, ele ligou para um desembargador amigo, que foi até o prédio
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11) Exames com luminol detectaram sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento
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12) Após a perícia, três PMs mulheres foram ao imóvel para fazer a limpeza; a conduta levou à abertura de investigação por abuso de autoridade
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13) Exame necroscópico indicou que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada.
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A defesa de Geraldo Neto afirmou que a prisão é ilegal. Sem entrar no mérito das acusações, os advogados alegam que a Justiça Militar não tem competência para determinar medidas invasivas como a prisão, que, segundo eles, deveria ser decretada pela Justiça comum.
Tenente-coronel humilhava
A Corregedoria da Polícia Militar conseguiu extrair do celular do tenente-coronel Geraldo Neto troca de mensagens entre ele e a esposa, a PM Gisele Alves Santana, morta com um tiro na cabeça no apartamento onde eles viviam, no Centro de São Paulo.
Nas conversas com o marido obtidas pelo SP1, da TV Globo, Gisele afirma que era submetida a episódios de humilhação, piadas e comportamento “babaca” por parte do marido, até no ambiente de trabalho na Polícia Militar, onde ele aparecia na seção onde ela trabalhava e ficava horas observando o trabalho dela.
Em um dos diálogos, ela escreve que Geraldo Neto teria que mudar o comportamento “babaca” e “sem escrúpulos”.“Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar”, escreveu a PM, morta com um tiro na cabeça.
“Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos. Estou deixando bem claro para você que não vou aguentar muito tempo esse comportamento babaca”, afirmou.
Gisele Alves Santana também reclamou: “Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?”, disse.Em outras mensagens, segundo a investigação, Geraldo Neto faz declarações machistas contra a esposa: “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”, declarou.
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Para a Corregedoria da PM – que pediu a prisão do tenente-coronel – os diálogos revelam a “concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico”.
“Tais manifestações não se apresentam como meros desentendimentos ocasionais entre um casal, mas sim como indícios de violência psicológica reiterada, caracterizada por tentativas de controle, constrangimento e desqualificação da autonomia da Sd PM Gisele”, disse a investigação.
Na visão dos investigadores da PM, “antes mesmo do evento fatal investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos”.
“O conteúdo extraído do aparelho celular não apenas confirma o contexto de conflito conjugal anteriormente relatado por testemunhas, como também evidencia elementos objetivos de violência psicológica e dinâmica relacional marcada por tensão e controle, circunstâncias que assumem relevância para compreensão do ambiente em que se inserem os fatos investigados”, disseram os policiais corregedores que investigam o caso.
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Prisão em São José dos Campos
A Justiça Militar decretou nesta terça-feira (17) a prisão preventiva do tenente-coronel Geraldo Neto. Ele foi preso pela Corregedoria da Polícia Militar (PM) em São José dos Campos, interior do estado, por volta das 8h17 desta quarta-feira (18).
Por meio de nota, a defesa do oficial reagiu à prisão de seu cliente alegando que ela não poderia ter sido feita pela Justiça Militar.
“A Justiça Militar é incompetente para analisar, processar e julgar o caso e, especialmente, para decretar medidas cautelares”, disse o advogado Eugênio Malavasi, que defende Geraldo. O criminalista vai suscitar conflito de competência com a Justiça comum.
Antes de ser detido, o coronel alegava que a esposa havia se suicidado após uma discussão. Mas essa versão caiu por terra após a Polícia Civil passar a investigar o caso como morte suspeita e laudos periciais indicarem que Geraldo matou a soldado (saiba mais abaixo).
A Corregedoria da PM pediu a prisão do coronel com base na investigação da Polícia Civil, que um dia antes o indiciou pelos crimes de feminicídio (homicídio contra mulher por questões de gênero) e fraude processual (ter adulterado a cena do crime).
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Ainda na terça-feira (17), a delegacia que investiga o caso também pediu a prisão de Geraldo, mas a Justiça comum ainda não havia se manifestado. A decisão de prender o coronel saiu antes pela Justiça militar.
O que diz a Justiça Militar
Por meio de nota, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) informou que “a prisão preventiva foi decretada com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares”.
“O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, além da gravidade concreta dos fatos apurados. A decisão também autorizou a apreensão de aparelhos celulares, a quebra de sigilo de dados eletrônicos e o compartilhamento de provas com a Polícia Civil, que conduz investigação paralela”, informa trecho do comunicado do TJM.
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Na determinação, o juiz militar também determinou que “o investigado deverá ser submetido a audiência de custódia, conforme previsto na legislação vigente” e as investigações prosseguem para o completo esclarecimento dos fatos.
Também por nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o coronel seguirá preso para o 8º Distrito Policial (DP), Brás, no Centro de São Paulo, onde Geraldo é investigado pelo assassinato de Gisele. Ele será interrogado e passará por exames de corpo de delito.
Após isso, irá para o Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital. “O Inquérito Policial Militar (IPM) será concluído nos próximos dias”, informa o comunicado da pasta da Segurança.
Laudos apontam feminicídio
A decisão das autoridades em pedir a prisão de Geraldo aconteceu após a Polícia Técnico-Científica anexar ao inquérito laudos relacionados à morte de Gisele. Indícios que constam em dois dos 24 laudos foram determinantes para isso:
- Trajetória da bala que atingiu a cabeça da vítima;
- Profundidade dos ferimentos encontrados.
Resultados de exames, como o necroscópico, o da exumação do corpo e o toxicológico foram cruciais para a delegacia concluir que Geraldo matou Gisele por ciúmes e possessividade. O oficial tem 53 anos; Gisele tinha 32.
Muitos dos laudos foram refeitos a pedido da própria investigação porque havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte da soldado. Veja abaixo a importância de cada um deles para a investigação:
Necroscópico: concluiu que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada e morta com um tiro na cabeça;
Trajetória do tiro: apontou que o disparo foi dado de baixo para cima e com o cano encostado na cabeça;
Exumação: vários exames foram refeitos no corpo, até mesmo complementares, como o necroscópico;
Toxicológico: não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela ter bebido ou estar dopada;
Residuográfico: não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo;
De local de crime: Gisele foi encontrada caída e segurando a arma, o que é incomum em casos de suicídio _segundo peritos, o mais provável é que ela largasse a pistola.Outros pontos que chamaram a atenção:
- O fato de o coronel ter telefonado para a PM, para pedir socorro, apenas 29 minutos minutos após uma vizinha escutar um tiro;
- O coronel havia dito que tinha tomado banho antes de a mulher atirar, mas quando socorristas chegaram ao imóvel o encontraram com o corpo seco;
- Somente após ter ligado para um desembargador amigo dele, que foi à residência, é que Geraldo foi se banhar, desobedecendo inclusive orientação de policiais militares que estavam no local. Câmeras de segurança gravaram o encontro do coronel com o desembargador (veja vídeo nessa reportagem);
- Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento. A perícia usou o luminol _equipamento com reagente químico, que indica substância hematóide contra a luz _ para achar as gotas de sangue;
- Após a perícia na residência, três policiais militares mulheres foram até lá limpar o imóvel. Por causa dessa conduta, o coronel passou a ser investigado pela Corregedoria da PM também por abuso de autoridade. Geraldo havia pedido afastamento da corporação após a morte da esposa;
- Sexológico: constatou que ela não estava grávida;
- Reconstituição: conhecido tecnicamente como reprodução simulada, ele apresentará por meio de fotos as versões que Geraldo e testemunhas deram para o que ocorreu. Ainda não ficou pronto.
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Fonte: Redação g1 SP e TV Globo — São Paulo – 18/03/2026



