Presidente americano atua em causa própria, propagando uma realidade do país paralela e desconectada.
Donald Trump se superou e apresentou o mais longo discurso do Estado da União da História dos Estados Unidos, tecendo uma versão própria da realidade do país durante 1 hora e 48 minutos.
O intuito era aproveitar a audiência televisiva para recuperar pontos junto ao eleitorado, que, em novembro, julgará o governo nas eleições de meio de mandato para renovar a Câmara e parte do Senado. Para isso, o presidente atuou como showman e abusou do tom populista e divisivo.
Num raro momento em que conclamou pela união do país, lançou uma pegadinha para constranger e acuar a oposição democrata, convocando os todos congressistas a aderirem ao seu governo:
“Se você concorda com esta declaração, levante-se e mostre seu apoio: o primeiro dever do governo americano é proteger os cidadãos americanos, e não os imigrantes ilegais”.
Os republicanos aplaudiram de pé, enquanto os democratas permaneceram sentados, oferecendo ao presidente a resposta esperada.
“Vocês deveriam ter vergonha de si mesmos por não se levantarem”, declarou, ovacionado pelos correligionários republicanos.
A armadilha era mais um sinal de que, na era Trump, o momento solene do discurso anual de um presidente americano à nação no plenário do Capitólio foi extinto e deu lugar ao espetáculo e à exposição de uma realidade paralela e desconectada.
Por meio dela, imigrantes são assassinos cruéis, a taxa de empregos é a maior da História do país, a fraude eleitoral é desenfreada e oito guerras foram encerradas neste primeiro ano de mandato.
“Esta noite, após apenas um ano, podemos dizer com dignidade e orgulho que alcançamos uma transformação como nunca se viu antes, uma reviravolta histórica. Nunca mais voltaremos a ser como éramos há tão pouco tempo. Não vamos voltar atrás”, declarou Trump.
A repetição de exageros e falsidades reforçavam o objetivo de abrilhantar e enobrecer o governo. Trump atuou em causa própria, gabando-se de comandar um país em alta, onde todos estão vencendo. Para isso, estava no Capitólio, convidada por ele, a seleção masculina de hóquei no gelo e campeã olímpica dos Jogos de Inverno no domingo (22).
As pesquisas de opinião, que apontam a sua popularidade em torno de 36%, confrontam claramente a realidade de prosperidade nacional apresentada pelo presidente.
Num momento desafiador para ele e seu partido, Trump se esquivou de propor novas políticas que revertam os números. Optou por destilar o ódio aos adversários democratas, vendendo a ideia de que são eles os inimigos do país.
Fonte: Sandra Cohen, g1 – 25/02/2026


