Pesquisa comparou atividade cerebral de adultos com e sem o transtorno durante tarefas que exigiam atenção prolongada. Grupo com TDAH teve mais episódios de ondas lentas, associados a falhas de atenção e erros.
Adultos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) apresentam mais atividade cerebral semelhante ao sono enquanto estão acordados – e esse padrão pode ajudar a explicar por que muitas pessoas com a condição neurobiológica têm mais dificuldade de manter o foco em tarefas que exigem atenção prolongada.
É isso o que aponta um novo estudo publicado nesta segunda-feira (16) no “Journal of Neuroscience” por pesquisadores da Universidade Monash, na Austrália.
Na pesquisa, os cientistas compararam a atividade cerebral de 32 adultos com TDAH que haviam suspendido a medicação com a de 31 adultos sem o transtorno enquanto realizavam uma tarefa de atenção sustentada (isto é, uma atividade que exige foco contínuo por um período prolongado, sem interrupções, como monitorar uma sequência de estímulos na tela e responder a alvos específicos).
O grupo com TDAH apresentou mais episódios desse tipo de atividade cerebral, associados a mais falhas de atenção, erros na tarefa, tempos de reação mais lentos e maior sensação de sonolência.
“A atividade cerebral semelhante ao sono é um fenômeno normal que acontece durante tarefas exigentes”, disse a neurocientista Elaine Pinggal, que coordenou o estudo.
“Pense em sair para uma corrida longa e ficar cansado depois de um tempo, o que faz você parar para descansar. Todos experimentam esses breves momentos de atividade semelhante ao sono. Nas pessoas com TDAH, no entanto, essa atividade ocorre com mais frequência, e nossa pesquisa sugere que esse aumento pode ser um mecanismo cerebral fundamental que ajuda a explicar por que esses indivíduos têm mais dificuldade em manter atenção e desempenho consistentes durante as tarefas.”
As análises indicaram ainda que essa atividade pode ser o elo que conecta o TDAH às dificuldades de atenção observadas no transtorno — não apenas uma consequência dos lapsos, mas possivelmente uma causa direta deles.
Ou seja, o cérebro com TDAH não falha por falta de esforço ou vontade, mas porque entra em um estado semelhante ao sono com mais facilidade e frequência do que o cérebro neurotípico.
O estudo abre também uma possível direção para intervenções.
Hoje a ciência sabe, por exemplo, que em pessoas sem o transtorno, a estimulação auditiva durante o sono (sons aplicados em momentos específicos da noite) é capaz de intensificar as ondas lentas cerebrais, o que no dia seguinte pode reduzir a ocorrência dessa atividade semelhante ao sono durante a vigília.
Pinggal aponta que uma próxima etapa da pesquisa pode ser investigar se essa mesma abordagem consegue diminuir esse tipo de atividade em pessoas com TDAH enquanto estão acordadas e realizando tarefas, abrindo caminho para tratamentos que atuem diretamente sobre esse mecanismo cerebral.
Entenda a imagem
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O gráfico acima mostra mapas da atividade cerebral de adultos com TDAH e de pessoas sem o transtorno durante uma tarefa que exigia atenção.
As cores indicam a intensidade de um tipo de atividade cerebral associado a estados de sonolência.
Nos participantes com TDAH, essa atividade aparece mais espalhada pelo cérebro — especialmente em áreas ligadas à atenção e ao processamento de informações — sugerindo que partes do cérebro entram com mais frequência em um estado semelhante ao do sono mesmo quando a pessoa está acordada.
Segundo os pesquisadores, esses breves “desligamentos” podem ajudar a explicar por que pessoas com TDAH têm mais dificuldade para manter a concentração ao longo do tempo.
Fonte: Redação g1 – 16/03/2026



