quinta-feira, julho 9, 2026
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Caso Bonnie Tyler: como a apendicite pode perfurar o intestino e evoluir para infecção generalizada

Cantora foi internada em maio após o apêndice se romper; quadro evoluiu para infecção grave e perfuração intestinal, que a manteve hospitalizada por dois meses até sua morte.

Bonnie Tyler morreu nesta quarta-feira (8), aos 75 anos, após dois meses internada em um hospital de Faro, em Portugal. A cantora havia sido levada às pressas a um pronto-socorro em maio, quando os médicos constataram que seu apêndice havia se rompido.

A ruptura provocou uma infecção grave e uma perfuração intestinal, que exigiram cirurgia de emergência e a colocação em coma induzido para auxiliar na recuperação.

Segundo relatos publicados pela imprensa internacional, Tyler começou a sentir fortes dores abdominais em abril, enquanto estava em sua casa no Algarve. Dois dias depois, foi levada a um hospital particular, que a transferiu com urgência para o hospital de Faro, onde os médicos identificaram a ruptura do apêndice.

Após a cirurgia, ela chegou a sofrer uma parada cardiorrespiratória durante uma tentativa de retirá-la do coma induzido, mas foi reanimada. No mês passado, sua equipe havia informado que a cantora tinha saído do coma, mas seguia em estado grave na UTI.

O cirurgião geral e oncológico Arnaldo Urbano Ruiz, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica ao g1 como um apêndice rompido pode evoluir para um quadro de perfuração intestinal e por que o tempo entre o início dos sintomas e o tratamento é decisivo para o prognóstico do paciente.

Como o apêndice rompido leva à perfuração intestinal

A apendicite é uma inflamação de origem infecciosa que atinge o apêndice vermiforme, pequeno órgão ligado ao intestino grosso. Ao contrário do que muitos acreditam, ele não é uma estrutura sem função: protege internamente o cólon por meio da produção de muco e participa da resposta imunológica do organismo, graças ao tecido linfático concentrado em sua parede.

Quando a inflamação não é tratada a tempo, o apêndice distende progressivamente até se romper, permitindo a saída de conteúdo intestinal para dentro do abdômen —o que configura a perfuração intestinal.

Segundo Ruiz, o organismo tenta conter esse extravasamento com o auxílio do grande epíploo, uma camada de tecido que reveste os órgãos abdominais e atua como primeira barreira de defesa.

Ainda assim, ele afirma que dificilmente essa contenção é completa, e algum grau de contaminação da cavidade abdominal costuma ocorrer. Esse processo desencadeia uma inflamação que pode evoluir para choque séptico, quadro que representa risco de morte.

Um quadro de sintomas variáveis

Ruiz descreve a apendicite como “o camaleão da medicina”, por causa da variedade de sintomas que pode provocar. O quadro costuma começar com um desconforto na boca do estômago, que migra para a região do umbigo e, depois, para a fossa ilíaca direita —área localizada na parte inferior direita do abdômen.

Mas a posição do apêndice varia de pessoa para pessoa, o que pode confundir o diagnóstico: quando está próximo à vesícula, os sintomas podem lembrar uma colecistite aguda; quando está encostado no ureter, pode simular uma infecção urinária. Diarreia também pode estar presente.

Pielonefrite, isquemia mesentérica e colecistite aguda estão entre os principais diagnósticos que podem ser confundidos com apendicite.

 — Foto: Reprodução/TV Anhanguera
— Foto: Reprodução/TV Anhanguera

Por que o tempo é decisivo

Segundo o cirurgião, o tratamento recomendado para apendicite aguda é cirúrgico, e deve ocorrer, idealmente, até o segundo ou terceiro dia do início dos sintomas. Quanto maior o intervalo entre o começo do quadro e o tratamento, maior o risco de complicações —incluindo a própria perfuração.

Ele afirma que, embora existam relatos na literatura médica de tratamento prolongado com antibióticos, esse protocolo é de difícil aplicação prática, e a cirurgia continua sendo a conduta indicada.

A perfuração também pode ocorrer, mais raramente, durante a própria cirurgia —seja por lesão do apêndice ou do ceco no momento da laparoscopia, seja por uma lesão do intestino delgado que passe despercebida durante o procedimento. Hoje, segundo o médico, a cirurgia aberta é raríssima, e a técnica predominante é a laparoscópica.

Não existe forma de prevenir a apendicite, e a retirada preventiva do apêndice não é indicada para a população em geral. A exceção fica restrita a situações muito específicas, como astronautas ou pessoas que participarão de expedições muito longas e isoladas, como viagens à Antártida —casos em que, segundo Ruiz, a remoção preventiva pode ser considerada.

 — Foto: Reprodução/Freepik
— Foto: Reprodução/Freepik

Quando procurar ajuda

Ruiz orienta que dor persistente na boca do estômago, que migra para o umbigo e depois para a fossa ilíaca direita, é sinal de alerta e deve levar à procura imediata de um pronto-socorro.

Segundo ele, mesmo diante da variedade de sintomas que a apendicite pode apresentar, uma história clínica bem colhida e um exame físico cuidadoso costumam ser suficientes para o diagnóstico correto na maioria dos casos.

Fonte: Talyta Vespa, g1 – 09/07/2026

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