Mudanças entram em vigor nesta quarta-feira (30/09) e flexibilizam critérios para tatuagens, exames, medicamentos, câncer, idade e viagens a áreas com malária.
As novas regras para doação de sangue no Brasil entram em vigor nesta quarta-feira (30/09) e reduzem o período de impedimento temporário em diversas situações, além de tornar a avaliação dos voluntários mais individualizada. As mudanças foram estabelecidas pela Portaria GM/MS nº 11.685, do Ministério da Saúde, e atualizam os critérios de triagem com base em avanços científicos e laboratoriais.
A revisão pretende ampliar o número de pessoas aptas a realizar a doação de sangue sem comprometer a segurança do procedimento. Em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 3,2 milhões de coletas, o equivalente a 15,29 doações para cada mil habitantes. Com os novos critérios, a expectativa é aumentar esses números e evitar que voluntários saudáveis permaneçam afastados dos hemocentros por mais tempo que o necessário.
O QUE MUDA PARA QUEM QUER DOAR SANGUE
Entre as principais alterações está a redução dos períodos de espera para pessoas que passaram por determinados procedimentos, utilizaram medicamentos específicos ou tiveram contato com situações que antes resultavam em impedimentos mais longos.
TATUAGEM, MICROPIGMENTAÇÃO E BOTOX
Quem realizou tatuagem, micropigmentação ou aplicação de botox poderá voltar a doar após sete dias, desde que seja possível comprovar a segurança do procedimento.
Quando não houver comprovação das condições de segurança, o período de inaptidão temporária continuará sendo maior: quatro meses.
ENDOSCOPIA E COLONOSCOPIA
O prazo de afastamento após exames como endoscopia e colonoscopia foi reduzido de seis para quatro meses.
A mudança pode ter impacto significativo sobre os estoques. Segundo dados do Grupo Pulsa, que administra bancos de sangue na América Latina, exames endoscópicos representaram 10% dos casos de inaptidão temporária analisados em 2026.
OZEMPIC, WEGOVY, MOUNJARO E SAXENDA
O uso de medicamentos injetáveis utilizados no tratamento do diabetes ou no controle do peso, como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saxenda, deixa de ser um impedimento automático para a doação.
O voluntário deverá informar o uso do medicamento durante a entrevista de triagem. A equipe de saúde avaliará o estado clínico de cada pessoa antes de autorizar a coleta.
DOADORES COM MAIS DE 70 ANOS
Doadores regulares que ultrapassarem os 70 anos poderão continuar contribuindo, desde que sejam submetidos a uma avaliação médica individualizada.
A mudança permite que pessoas que já possuem histórico de doação continuem participando, desde que apresentem condições adequadas de saúde.
HISTÓRICO DE CÂNCER
A regra também foi alterada para pessoas que tiveram câncer. Quem passou por tratamento para a maioria dos tipos da doença poderá voltar a doar cinco anos após o fim do tratamento, desde que esteja em remissão.
Há exceções. Casos de melanoma e cânceres do sistema hematopoético continuam sujeitos a impedimento definitivo.
PREP E PEP
O período de espera para quem utiliza PrEP ou PEP também foi revisado. Para PrEP oral ou PEP, o impedimento passa a ser de quatro meses após a última dose. Já no caso da PrEP injetável de longa duração, o prazo estabelecido é de 24 meses.
DOENÇAS DA TIREOIDE
As alterações relacionadas à tireoide também deixam de gerar um veto automático.
Apenas a tireotoxicose causada pela doença de Graves continua sendo motivo de restrição definitiva. As demais condições serão avaliadas individualmente durante a triagem.
VIAGEM PARA ÁREAS COM MALÁRIA
Uma das mudanças mais expressivas envolve pessoas que viajaram para regiões consideradas endêmicas para malária.
Com a utilização de um novo exame laboratorial, o NAT para malária, o período de inaptidão cai de 12 meses para 30 dias após a exposição.
TRIAGEM CONTINUA SENDO INDIVIDUALIZADA
Apesar da flexibilização de vários critérios, as etapas fundamentais de segurança permanecem. Antes da coleta, o candidato continua passando por cadastro, aferição dos sinais vitais, teste para verificar anemia por meio da dosagem de hemoglobina e entrevista clínica detalhada.
Para Rafael Calil Luzzi, presidente da Associação Brasileira de Bancos de Sangue (ABBS), a atualização permite analisar com mais precisão situações que anteriormente poderiam manter candidatos afastados por períodos maiores.
“A atualização dos critérios permite avaliar de maneira mais precisa situações que antes afastavam candidatos por períodos mais longos. Isso pode fazer com que pessoas em boas condições de saúde retornem mais cedo à doação. Ao mesmo tempo, a triagem continua sendo individual e criteriosa, preservando a segurança de quem doa e de quem recebe o sangue”, destacou.
O QUE CONTINUA IGUAL NA DOAÇÃO DE SANGUE
Nenhuma bolsa coletada é liberada para utilização antes da realização dos testes laboratoriais obrigatórios para doenças transmissíveis. O sangue também permanece submetido a um sistema de rastreabilidade de ponta a ponta.
Os requisitos gerais para a doação também continuam valendo. O voluntário deve apresentar documento oficial com foto, pesar pelo menos 50 quilos e estar bem alimentado e descansado.
Adolescentes de 16 e 17 anos podem doar, mas continuam dependendo de autorização dos responsáveis legais.
MUDANÇAS PODEM AMPLIAR A BASE DE DOADORES
A revisão dos critérios também é vista como uma oportunidade para reduzir afastamentos temporários que não sejam mais necessários diante dos avanços nos métodos de avaliação e diagnóstico.
Paulo Tadeu de Almeida, diretor médico do Grupo Pulsa, destaca a importância de ampliar a participação da população sem abrir mão dos mecanismos de segurança.
“Para quem trabalha diariamente com doação de sangue, ampliar de forma segura a possibilidade de participação de novos e antigos doadores é muito relevante. O sangue não pode ser produzido artificialmente e depende da doação voluntária. Quanto mais conseguirmos orientar corretamente a população e evitar impedimentos além do necessário, maior é a possibilidade de fortalecer a base de doadores e contribuir para estoques mais regulares”, afirmou.
A recomendação da ABBS é que pessoas que tenham dúvidas sobre medicamentos utilizados ou procedimentos realizados recentemente não deixem de procurar um hemocentro.
A orientação é passar pela entrevista de triagem. Nessa etapa, os profissionais de saúde estão capacitados para analisar individualmente cada situação e verificar se o candidato reúne as condições necessárias para realizar a doação.
Mesmo com a flexibilização dos critérios, a segurança permanece como uma das principais etapas do processo, combinando avaliação clínica, testes laboratoriais e rastreabilidade das bolsas para proteger tanto os doadores quanto os pacientes que receberão o sangue.
Fonte: Sales Coimbra, UOL – 30/09/2026




