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Estrela morta pode estar ‘devorando’ planeta que nasceu de suas próprias cinzas

Astrônomos identificaram uma mistura química incomum na anã branca HS 0209+0832 e sinais de que um mundo gigante muito próximo esteja perdendo parte de sua atmosfera para a estrela. Achado pode ajudar a explicar como sistemas planetários se reorganizam após o fim da vida estelar.

Uma estrela morta pode estar lentamente “devorando” um planeta formado a partir do material que ela própria lançou ao espaço antes de morrer.

É o que sugere um estudo publicado nesta segunda-feira (05) na revista “Nature Astronomy” sobre a anã branca HS 0209+0832.

Os pesquisadores encontraram na atmosfera desse objeto uma combinação de elementos químicos diferente de tudo o que já foi observado em corpos do Sistema Solar e sinais de que um possível planeta gigante esteja orbitando muito perto dali.

A principal hipótese é que esse mundo seja um planeta de segunda geração: em vez de ter surgido junto da estrela, ele teria se formado depois que ela envelheceu, expulsou suas camadas externas e terminou como uma anã branca.

Agora, a intensa radiação desse remanescente estelar pode estar arrancando gás da atmosfera do planeta.

Parte desse material cairia sobre a anã branca e deixaria nela uma espécie de registro químico da composição do mundo que a orbita.

A existência do planeta, contudo, ainda não foi confirmada diretamente. Os próprios autores o classificam como um candidato, e a interpretação depende de diferentes pistas encontradas nas observações.

“Materiais rochosos e gelados no Sistema Solar e em outros sistemas planetários são formados principalmente por oxigênio, magnésio, silício e ferro”, explica ao g1 Jamie T. Williams, pesquisador da Universidade de Warwick e autor principal do estudo.

“Mas, na HS 0209+0832, não detectamos oxigênio, magnésio nem ferro e encontramos apenas uma quantidade muito pequena de silício. Em contrapartida, detectamos grande quantidade de cobre, zinco e nióbio”.

Segundo ele, esses elementos são produzidos em uma fase avançada da vida da estrela, quando ela está morrendo e a caminho de se transformar em uma anã branca.

Por isso, a composição indica que o possível planeta teria sido construído a partir de material expelido nessa etapa.

As pistas de um mundo de segunda geração

Anãs brancas são os restos compactos deixados por estrelas de baixa massa depois que elas esgotam seu combustível. Apesar de concentrarem muita matéria, podem ter tamanho próximo ao da Terra.

A HS 0209+0832 é uma anã branca jovem e quente. E ao analisar sua atmosfera, os pesquisadores encontraram uma assinatura química que não corresponde à de planetas, asteroides ou cometas conhecidos.

O nióbio foi uma das pistas mais fortes.

“Esta é a primeira vez que o nióbio é detectado na atmosfera de uma anã branca. Em relação ao cálcio, o nióbio é mais de mil vezes mais abundante na HS 0209+0832 do que no Sistema Solar. Portanto, os blocos que formaram esse planeta devem ser muito ricos em nióbio”, afirmou Williams.

O nióbio é produzido em uma fase avançada da vida da estrela. Antes de terminar como uma anã branca, o astro perde grande parte de suas camadas externas e lança esse material ao espaço.

A partir daí, os pesquisadores consideram dois caminhos possíveis.

Em um deles, parte desses restos teria se reunido em um disco ao redor da anã branca e dado origem, do zero, a um novo planeta gigante. No outro, o núcleo de um planeta mais antigo teria sobrevivido à transformação da estrela e depois acumulado uma nova camada de material expelido por ela.

“Os dois cenários são possíveis, mas acho mais plausível aquele em que o planeta se formou do zero, algo que também é apoiado por trabalhos teóricos recentes. O cenário em que um planeta acumula material de segunda geração exige alguns processos muito específicos. Ainda serão necessários mais estudos para distinguir qual deles é mais provável”, disse o pesquisador.

Representação artística mostra uma anã marrom transferindo material para uma anã vermelha no sistema ZTF J0440+2325. Os dois objetos completam uma órbita a cada 86,65 minutos. — Foto: Aaron Householder/MIT
Representação artística mostra uma anã marrom transferindo material para uma anã vermelha no sistema ZTF J0440+2325. Os dois objetos completam uma órbita a cada 86,65 minutos. — Foto: Aaron Householder/MIT

Há outra pista de que um corpo esteja realmente orbitando a anã branca.

Dados do telescópio espacial TESS mostraram que o brilho da HS 0209+0832 varia em um padrão que se repete a cada 4,39 dias.

Esse intervalo é muito maior do que o período de rotação típico de uma anã branca, o que torna menos provável que a mudança esteja sendo produzida pela própria estrela.

O modelo elaborado pela equipe reproduz essa variação considerando um planeta gigante em órbita, cujo lado voltado para a anã branca fica muito mais quente que o lado oposto.

Outra possibilidade discutida no estudo é que o objeto esteja deixando uma cauda de gás para trás.

A confirmação, porém, ainda depende de novas observações. Williams afirma que dados do Telescópio Espacial James Webb (JWST) poderão ajudar a verificar se o planeta realmente existe.

A forte radiação recebida tão perto da anã branca faria esse possível mundo perder parte de sua atmosfera. O gás escaparia e uma fração acabaria atraída para a superfície da estrela.

É nesse sentido que ela estaria “devorando” o planeta: o estudo não indica que o corpo inteiro esteja sendo engolido de uma vez, mas que sua atmosfera pode estar sendo retirada pouco a pouco.

Se a interpretação estiver correta, as implicações vão além desse sistema.

“Se esse planeta for confirmado, será uma classe inteiramente nova de planeta em torno de anãs brancas, diferente de tudo o que temos no Sistema Solar. Isso indicaria que a formação de planetas ao redor de anãs brancas é possível e que pode haver muitos outros que ainda não descobrimos”, afirmou Williams.

O pesquisador destaca ainda que anãs brancas podem manter por bilhões de anos uma região onde as temperaturas permitiriam, em princípio, a existência de água líquida em um planeta adequado.

No caso da HS 0209+0832, porém, o candidato identificado não permaneceria nessa faixa por tanto tempo.

Ainda segundo Williams, ele passaria apenas algumas dezenas de milhões de anos nessa região quando a anã branca esfriasse o suficiente, daqui a algumas centenas de milhões de anos.

Por enquanto, a HS 0209+0832 oferece uma pista de que o fim de uma estrela não precisa significar necessariamente o fim da formação de mundos ao seu redor.

Novas observações deverão mostrar se esse é um caso excepcional ou se planetas de segunda geração são mais comuns do que se imaginava.

Fonte: Roberto Peixoto, g1 – 06/10/2026 

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