quarta-feira, outubro 28, 2026
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Pesquisa com mais de 28 mil pessoas descobre ‘freio’ que pode ser chave para novos tratamentos de doenças hereditárias do sangue

Estudo publicado na revista científica Nature contou com participação de pesquisadoras brasileiras da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Análise identificou o papel da proteína BACH2 na regulação da chamada hemoglobina fetal.

Uma pesquisa com dados genéticos de mais de 28 mil pessoas identificou um mecanismo que pode abrir novos caminhos para o tratamento de doenças hereditárias do sangue, como a anemia falciforme e a beta-talassemia.

➡️O estudo, publicado na revista científica Nature e que contou com participação de pesquisadoras brasileiras da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), identificou o papel da proteína BACH2 na regulação da chamada hemoglobina fetal, uma forma de hemoglobina que predomina durante a gestação.

Segundo os pesquisadores, a proteína atua como um “freio” da produção de hemoglobina fetal. Ao reduzir a ação desse freio em células cultivadas no laboratório, os cientistas conseguiram aumentar a produção de hemoglobina fetal.

Ester Sabino, imunologista e titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, explica que já se sabia há muito tempo que, aqueles que possuem níveis altos de hemoglobina fetal durante a vida uterina, tendem a ter uma melhora no quadro de anemia falciforme.

Assim, o aumento promovido a partir da descoberta da atuação da proteína pode ajudar a amenizar os efeitos de doenças hereditárias do sangue.

“Cada vez que você descobre um caminho pelo qual uma proteína é produzida, facilita encontrar caminhos de tratar os pacientes”, analisa Sabino.

A descoberta amplia o conhecimento sobre os mecanismos que controlam a produção dessa proteína e aponta um possível caminho para desenvolver novas estratégias terapêuticas.

Como funciona o mecanismo identificado

🩸A hemoglobina é a proteína presente nos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigênio pelo organismo. Durante o desenvolvimento humano, a hemoglobina fetal é gradualmente substituída pela forma predominante na vida adulta.

Em pessoas com anemia falciforme, uma alteração genética faz com que a hemoglobina adulta tenha um funcionamento anormal, levando à deformação dos glóbulos vermelhos.

Já a beta-talassemia é uma doença hereditária caracterizada pela produção reduzida ou ausente de uma das partes da hemoglobina adulta.

Os pesquisadores explicam que, nesses contextos, aumentar a produção de hemoglobina fetal é uma estratégia de interesse para o tratamento.

E o estudo investigou justamente os mecanismos genéticos envolvidos na regulação dessa produção e identificou a BACH2 como um dos fatores que a restringem.

Segundo o grupo, uma variante genética associada a níveis mais elevados de hemoglobina fetal reduz a expressão de BACH2. Nos experimentos realizados em laboratório, a redução ou inibição dessa proteína também aumentou a expressão da hemoglobina fetal.

Os resultados indicaram ainda que a BACH2 restringe a ativação promovida pela NRF2. Essa relação entre as duas proteínas constitui um mecanismo de regulação que pode ser explorado em pesquisas futuras.

Análise genética reuniu dados de mais de 28 mil pessoas

Para investigar os fatores genéticos associados à produção de hemoglobina fetal, os pesquisadores realizaram uma análise que reuniu 28.279 pessoas de diferentes ancestralidades.

O estudo identificou 91 associações genéticas independentes distribuídas por 12 regiões do genoma. Em uma dessas regiões, os pesquisadores encontraram uma variante associada a níveis mais elevados de hemoglobina fetal e à redução da expressão de BACH2.

“Em estudos genéticos, para que se chegue a descobertas, é necessário um grande número de pessoas, de populações de lugares diferentes”, analisa Sabino.

A partir dessa pista genética, a equipe realizou experimentos para investigar se a proteína tinha um papel direto na regulação da hemoglobina fetal. Os resultados reforçaram a relação identificada na análise genética e ajudaram a esclarecer o mecanismo biológico envolvido.

A combinação de dados genéticos de pessoas e experimentos funcionais foi importante para relacionar a variante identificada à atuação de BACH2 na produção da hemoglobina fetal.

Combinação de estratégias apresentou resultado promissor

O estudo também investigou a relação entre BACH2 e BCL11A, outro regulador conhecido da produção de hemoglobina fetal e alvo de estratégias terapêuticas.

Os experimentos indicaram que as duas proteínas atuam por mecanismos independentes. Quando os pesquisadores reduziram a ação de BACH2 e de BCL11A simultaneamente, observaram um aumento da hemoglobina fetal superior ao obtido com a redução de cada uma das proteínas isoladamente.

O resultado sugere que atuar sobre diferentes mecanismos de regulação pode ser uma possibilidade para pesquisas voltadas ao aumento da hemoglobina fetal.

Apesar de promissora, a descoberta ainda precisa avançar antes que essa abordagem possa ser considerada uma alternativa de tratamento. Segundo os pesquisadores, os experimentos não demonstram, por si só, que a estratégia seja segura ou eficaz em pacientes.

“Esse é só o primeiro passo. Depois que a gente entende esses mecanismos, é preciso testar inicialmente em modelos animais e, depois, realizar estudos em humanos para só então desenvolver um tratamento seguro”, finaliza Ester Sabino.

Fonte: Júlia Carvalho, g1 – 28/10/2026

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