Marcela Pagano aponta possíveis irregularidades no controle migratório, na escolta policial e no uso de veículos diplomáticos durante a passagem do senador pela Argentina. Justiça do país determinou a preservação de imagens da fronteira e do aeroporto.
A deputada argentina Marcela Pagano cobrou explicações sobre a possível participação de autoridades do governo de Javier Milei na operação que permitiu a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil rumo aos Estados Unidos.
Em entrevista ao Fantástico, exibida neste domingo (1º), a parlamentar afirmou que testemunhos e imagens apontam possíveis irregularidades na passagem de Flávio e sua família pela Argentina, incluindo o uso de escolta policial e veículos diplomáticos.
“A irregularidade na passagem pelo controle de imigração argentino, a escolta de policiais e, depois, o transporte em carros diplomáticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. São esses os elementos que eu apresento pra que a Justiça cobre explicações das autoridades argentinas sobre como puderam autorizar essa operação”, afirmou a deputada.
A operação também passou a ser alvo de questionamentos na Justiça argentina, que determinou a preservação de imagens das câmeras de segurança da fronteira e do aeroporto de Puerto Iguazú, cidade vizinha a Foz do Iguaçu, no Paraná.
O Fantástico questionou o governo argentino sobre uma eventual colaboração na saída de Flávio do Brasil e na viagem do senador aos Estados Unidos.
O secretário de Comunicação da Presidência da Argentina, Fabian Fernandez, respondeu que o governo não tinha nada a declarar.
Registros migratórios e escolta policial
A reportagem do Fantástico teve acesso a documentos do sistema de imigração argentino que integram uma investigação realizada em cooperação internacional. Os registros revelam detalhes da operação montada para a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil.
Segundo os documentos, duas vans da empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda. cruzaram a fronteira de Foz do Iguaçu em direção à Argentina na noite de terça-feira (27).
Em uma delas, que havia saído de Cascavel, no oeste do Paraná, estavam registrados os dados da mulher de Flávio, Fernanda, e das duas filhas do casal.
O sistema também registrou três entradas de Flávio Bolsonaro na Argentina, na mesma van, em um intervalo de 34 minutos.
A primeira ocorreu às 22h37, com passaporte italiano. Três minutos depois, houve outro registro, desta vez com dados da carteira de identidade. Às 23h11, uma terceira entrada foi registrada com o passaporte brasileiro.
Os dois registros com documentos brasileiros foram posteriormente cancelados, permanecendo válido apenas o registro com o passaporte italiano.
A segunda van havia cruzado a fronteira cerca de sete minutos antes. Nela estavam registrados o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre, que já atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro, e o israelense Menachem Booky Halevy, apontado como ex-oficial do serviço de inteligência de Israel.
O jornalista argentino Nicolás Munafó, do canal de notícias C5N, estava no aeroporto de Puerto Iguazú quando as vans chegaram e relatou ao Fantástico ter visto uma comitiva acompanhada por veículos oficiais.
“Na frente, vamos dizer assim, da comitiva vinha uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária, que é responsável pelos aeroportos da Argentina. Depois, vimos sair duas caminhonetes brasileiras, com placas do Brasil e motoristas brasileiros. E, em seguida, mais duas caminhonetes argentinas, uma delas com placa diplomática”, contou.
A presença de uma escolta policial e de veículos com placas diplomáticas está entre os pontos questionados pela deputada Marcela Pagano, que também citou supostas irregularidades no controle migratório.
Segundo a parlamentar, os carros diplomáticos utilizados na operação seriam do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. Ela cobra que a Justiça esclareça como as autoridades do país puderam autorizar a operação.
Como Flávio Bolsonaro chegou à Argentina?
Apesar de os documentos migratórios indicarem que Flávio entrou na Argentina por terra, fontes ouvidas pelo Fantástico afirmam que a principal linha de investigação aponta para uma chegada de avião.
Nessa versão, o senador teria deixado Brasília às 5h05 de terça-feira (27), em um jato ligado ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. A aeronave pousou às 8h40 em San Fernando, na região de Buenos Aires.
De lá, Flávio teria seguido em outro voo privado até Puerto Iguazú, onde, segundo a investigação, permaneceu por horas dentro do avião à espera da mulher e das filhas.
Investigadores também apuram relatos de funcionários do aeroporto que teriam visto o senador dentro da aeronave.
Já Fernanda e as duas filhas teriam deixado Brasília em outro avião, com destino a Cascavel. No aeroporto da cidade paranaense, embarcaram em uma van que seguiu até a fronteira com a Argentina.
O advogado Willer Tomaz negou, por meio de sua assessoria, que uma aeronave pertencente a ele ou a empresas vinculadas à sua família tenha sido utilizada por Flávio ou seus familiares para deixar o Brasil.
Saída da Argentina para os EUA
Após a chegada da família a Puerto Iguazú, Flávio, a mulher e as filhas seguiram para os Estados Unidos em um jato de luxo Gulfstream G400, operado pela empresa argentina Baires Fly.
O voo custou US$ 150 mil (cerca de R$ 800 mil), segundo o empresário Luis Grande, dono da companhia, em entrevista à agência France-Presse (AFP).
A aeronave fez uma escala em Guayaquil, no Equador, para reabastecimento, antes de seguir para Miami, nos Estados Unidos.
A família desembarcou na manhã de quarta-feira (28), no Aeroporto Executivo de Opa-Locka, na Flórida.
Flávio deixou o Brasil após o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar que ele entregasse seus passaportes à Polícia Federal.
O advogado Frederick Wassef, que representa o senador, afirmou ao Fantástico que nenhuma informação sobre a viagem é oficial ou foi confirmada. Ele também negou que a saída do país tenha sido uma fuga.
Fonte: Fantástico – 02/11/2026




