O pediatra defende a criação de espaços de escuta sem julgamentos e o uso de estratégias simples, como conversas no carro, para romper o isolamento dos jovens.
A pesquisa Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada pelo IBGE, colocou luz sobre a crise de saúde mental que aflige os jovens brasileiros. De acordo com os dados colhidos a partir de 118 mil estudantes, são crescentes os índices de tristeza e desânimo entre adolescentes de 13 a 17 anos.
O quadro exige novas estratégias de abordagem de pais, mães e educadores a esses jovens. No podcast O Assunto, pediatra e sanitarista Daniel Becker destaca que, embora o cenário seja complexo devido ao impacto das redes sociais e do confinamento digital, existem caminhos para reconstruir vínculos e aumentar o acolhimento.
Sinais de alerta: o que observar
Becker enfatiza que a família deve estar atenta a mudanças de comportamento que podem indicar sofrimento profundo ou depressão. Entre os sinais listados estão:
- Isolamento extremo: o adolescente deixa de participar de refeições e reuniões familiares, preferindo ficar trancado no quarto com telas;
- Alterações físicas e escolares: cansaço excessivo, olheiras por falta de sono, desculpas para faltar às aulas (que podem indicar bullying) e queda repentina no rendimento escolar;
- Discursos de desesperança: frases como “não sirvo para nada” ou “não quero mais viver” devem ser tratadas com seriedade imediata, pois indicam risco de suicídio.
A técnica da conversa no carro
Uma das orientações mais práticas do médico é sobre a forma de abordagem. Becker sugere que conversar no carro ou no ônibus é mais eficaz do que o confronto direto.
“No carro, a gente não olha para o adolescente e ele não se sente julgado. Como estão todos olhando para a frente, a conversa flui melhor porque ele não se sente observado”, explica o pediatra
Dicas para o acolhimento afetivo
Para o especialista, o espaço de convivência não pode ser focado em sermões, mas sim em afeto e delicadeza. Ele recomenda as seguintes abordagens:
- Escuta ativa: é fundamental ouvir o jovem sem forçar a barra ou aplicar punições excessivas. O objetivo é servir como guia e orientação;
- Convites para o “mundo real”: chamar o adolescente para atividades simples, como ver um jogo, ir ao cinema ou jantar, ajuda a manter o contato com a realidade fora das telas;
- Rede de apoio: envolver avós, tios e amigos da família para que o jovem tenha diferentes pontos de contato e suporte;
- O papel do esporte: Becker afirma categoricamente que “o esporte salva na adolescência”, sendo essencial para retirar o jovem do confinamento digital.
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Quando buscar ajuda profissional
Se os sinais de alerta persistirem, o médico orienta que os responsáveis devem “arregaçar as mangas” e procurar imediatamente um profissional de saúde mental
Além disso, a articulação com a escola é indispensável para entender o comportamento do jovem fora do ambiente doméstico
“A atenção amorosa ao adolescente hoje é fundamental. Eles dizem que se sentem não vistos, não reconhecidos, e isso agrava tudo”, conclui Becker
Fonte: g1 – 03/04/2026



