Imunizante recombinante adjuvado foi avaliado para pessoas a partir de 80 anos e para pacientes com baixa imunidade; decisão da Conitec tem a ver com o alto custo.
O Sistema Único de Saúde (SUS) decidiu não incorporar a vacina contra herpes-zóster, doença popularmente conhecida como cobreiro. A decisão foi publicada nesta segunda-feira (12) no Diário Oficial da União e se refere ao imunizante recombinante adjuvado, avaliado para uso em idosos com 80 anos ou mais e em pessoas imunocomprometidas a partir de 18 anos.
A conclusão foi tomada após análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), órgão responsável por avaliar evidências científicas, impacto orçamentário e custo-efetividade de medicamentos, vacinas e procedimentos antes de sua eventual oferta na rede pública.
Segundo a portaria, a vacina não será incorporada ao SUS nas indicações analisadas. O texto ressalta, no entanto, que o tema pode ser submetido a uma nova avaliação no futuro, caso sejam apresentados fatos novos que possam alterar o resultado da análise.
O que é a vacina contra herpes-zóster
A vacina contra herpes-zóster foi desenvolvida para prevenir a reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo que causa a catapora. Após a infecção inicial, o vírus permanece latente no organismo e pode voltar a se manifestar décadas depois, especialmente com o envelhecimento ou a queda da imunidade.
O imunizante avaliado pela Conitec é o único disponível no Brasil atualmente: do tipo recombinante adjuvada, é considerado um avanço em relação às versões anteriores.
“As vacinas mais antigas tinham eficácia menor, em torno de 50% a 60%, proteção de curta duração e pior desempenho justamente nos mais velhos”, explica Renato Kfouri, infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.
“A vacina recombinante mudou esse cenário: ela tem eficácia em torno de 90%, independentemente da idade, inclusive no idoso.”
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Por que preocupa em idosos e imunocomprometidos
O herpes-zóster é mais frequente com o avançar da idade e em pessoas com o sistema imunológico comprometido. Além das lesões na pele, a doença pode evoluir para a neuralgia pós-herpética, uma dor crônica intensa que pode durar meses ou até anos após a infecção.
“Não é à toa que a vacina é licenciada de forma rotineira a partir dos 50 anos e indicada, em alguns casos, desde os 18 para pessoas imunocomprometidas”, diz Kfouri.
Segundo ele, condições de imunossupressão aumentam tanto o risco de adoecer quanto a gravidade do quadro.
O estudos recentes têm observado sobre a vacina
Além de reduzir o risco de herpes-zóster e de neuralgia pós-herpética, estudos observacionais vêm investigando se a vacinação pode trazer efeitos indiretos ao evitar a reativação repetida do vírus varicela-zóster, que permanece latente no organismo ao longo da vida.
Uma meta-análise internacional apresentada em 2025 no Congresso Europeu de Cardiologia, que reuniu dados de 19 estudos ao longo de quase duas décadas, observou que pessoas vacinadas contra herpes-zóster tiveram menor incidência de eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), em comparação com não vacinados.
A redução foi estimada em até 18%, a depender da faixa etária.
Outro trabalho de grande repercussão, publicado na revista científica Nature, analisou mais de 280 mil adultos no Reino Unido e encontrou menor frequência de novos diagnósticos de demência entre pessoas que receberam a vacina contra herpes-zóster ao longo de um seguimento de sete anos.
O estudo explorou um desenho quase experimental criado por regras administrativas do sistema de saúde britânico, o que permitiu comparar grupos semelhantes de pessoas vacinadas e não vacinadas.
Neurocirurgião do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), Helder Picarelli destaca que esses achados não mudam as indicações formais da vacina nem substituem ensaios clínicos randomizados.
Ainda assim, ele explica, ajudam a contextualizar o interesse crescente da comunidade científica na prevenção do herpes-zóster, sobretudo em idosos, ao reduzir episódios repetidos de inflamação associados à reativação do vírus.
Para Kfouri, esse tipo de evidência deve ser interpretado com cautela, mas faz sentido do ponto de vista biológico.
“O herpes-zóster é uma doença inflamatória, e sabemos que inflamação repetida ao longo dos anos pode contribuir para outros desfechos de saúde. Prevenir a reativação do vírus pode ter impactos que vão além da doença em si, embora isso ainda esteja em investigação”, afirma.
Por que a vacina não entrou no SUS
Apesar do reconhecimento da importância clínica do imunizante, a incorporação ao SUS envolve uma análise mais ampla, que vai além da eficácia. “A discussão não é se a vacina funciona —ela funciona muito bem. O ponto central é custo-efetividade, impacto orçamentário e como hierarquizar prioridades dentro do Programa Nacional de Imunizações”, afirma Kfouri.
O infectologista destaca que o Brasil enfrenta desafios simultâneos na política de vacinação.
“Temos grandes prioridades hoje, como dengue, vírus sincicial respiratório, atualização das vacinas pneumocócicas, HPV. Nem sempre é simples definir a ordem dessas incorporações diante de um orçamento limitado.”
Para ele, a decisão da Conitec reflete esse cenário. “Não se trata de desconsiderar a relevância da vacina contra herpes-zóster, mas de reconhecer que ela tem um custo extremamente elevado. Dentro desse contexto, o entendimento foi de que, neste momento, a incorporação não era custo-efetiva.”
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Quem tem acesso à vacina hoje no Brasil
Atualmente, a vacina contra herpes-zóster não integra o Programa Nacional de Imunizações e está disponível apenas na rede privada.
A Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda a vacinação de rotina a partir dos 60 anos e considera sua aplicação a partir dos 50. Para pessoas imunocomprometidas, a indicação pode começar aos 18 anos, a depender da condição clínica.
Na rede privada, cada dose custa, em média, entre R$ 900 e R$ 1.200. Como o esquema completo exige duas doses, o valor total pode chegar a R$ 2.400, variando conforme a clínica e a região.
O que diz o Ministério da Saúde
Para que uma tecnologia em saúde seja incorporada ao Sistema Único de Saúde, é necessário que passe pela avaliação da Conitec, que analisa evidências científicas de eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário.
Segundo o Ministério da Saúde, em 10 de dezembro, “a Conitec emitiu parecer final desfavorável à incorporação da vacina contra a herpes-zóster. No processo, foi reconhecida a importância clínica do imunizante, mas a vacina não foi considerada custo-efetiva nas condições avaliadas. A estimativa indicou um impacto orçamentário superior a R$ 5,2 bilhões em cinco anos”.
Para efeito de comparação, a Pasta informou que todos os medicamentos distribuídos pelo Programa Farmácia Popular somaram R$ 4,2 bilhões no ano passado, valor inferior ao custo projetado apenas para a incorporação da vacina contra herpes-zóster.
Ainda de acordo com o ministério, “até o momento o laboratório responsável não apresentou nova proposta. A pasta afirmou que tem interesse na incorporação da vacina e seguirá em negociação para buscar um preço compatível com a disponibilidade orçamentária do SUS”, conclui a nota da Pasta enviada ao g1.
Fonte: Talyta Vespa, g1 – 13/01/2026


