quarta-feira, março 18, 2026
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Moléculas em asteroide mostram que bases do DNA e do RNA existem fora da Terra; entenda impacto no debate sobre a origem da vida

Resultado reforça hipótese de que asteroides podem ter entregado ingredientes moleculares à Terra antes do surgimento da vida no nosso planeta.

Um asteroide que orbita o Sol há 4,6 bilhões de anos guarda, em suas rochas, os cinco blocos moleculares que sustentam o código genético de toda vida conhecida na Terra.

Amostras do asteroide Ryugu, coletadas pela missão Hayabusa2 da agência espacial japonesa JAXA entre 2018 e 2019 e trazidas à Terra em dezembro de 2020, confirmaram a presença de adeninaguaninacitosinatimina uracila, as cinco nucleobases que formam as “letras” do DNA e do RNA.

Os resultados foram publicados na última segunda-feira (16) na revista científica “Nature Astronomy”.

🧬ENTENDA: As nucleobases são moléculas orgânicas que compõem a estrutura em dupla hélice do DNA e definem as sequências que carregam e transmitem informações genéticas em todos os organismos. Combinadas com açúcares e fosfatos, formam os nucleotídeos, as peças que montam o material genético.

Sem essas moléculas, a vida como a conhecemos não seria possível.

O que torna a descoberta relevante, porém, é o fato de que o Ryugu se formou quando os planetas ainda nasciam ao redor do nosso jovem Sol e permaneceu quimicamente preservado desde então.

Assim, a detecção dessas moléculas em um material que nunca tocou a Terra indica que elas se formam de maneira abiótica (sem a presença de vida) e que podem ter se espalhado pelo sistema solar nos primeiros bilhões de anos de sua existência.

“A detecção de nucleobases diversas em asteroides e meteoritos demonstra sua presença disseminada pelo sistema solar e reforça a hipótese de que asteroides carbonáceos [ricos em carbono e compostos orgânicos] contribuíram para o inventário químico pré-biótico da Terra primitiva”, sugerem os autores no estudo.

⚠️O achado, contudo, NÃO afirma que a vida tem origem fora da Terra. O que os autores sustentam é que essas moléculas se formaram sem a presença de vida e que corpos celestes como o Ryugu podem ter entregado esses ingredientes à Terra antes de qualquer organismo existir.

Ilustração mostra as cinco bases nucleicas (A, G, C, T e U) identificadas nas amostras do asteroide Ryugu, componentes essenciais do DNA e do RNA. — Foto: JAMSTEC
Ilustração mostra as cinco bases nucleicas (A, G, C, T e U) identificadas nas amostras do asteroide Ryugu, componentes essenciais do DNA e do RNA. — Foto: JAMSTEC

As letras da vida

A hipótese de que asteroides contribuíram com os ingredientes para a origem da vida na Terra é investigada há décadas por cientistas.

Por isso, o resultado desse estudo fortalece essa linha de pesquisa ao mostrar que todas as cinco nucleobases podem surgir de processos químicos naturais em corpos rochosos primitivos, antes mesmo de qualquer planeta ter condições de abrigar organismos vivos.

A equipe analisou dois fragmentos do Ryugu em laboratório com um controle rigoroso de contaminação, usando uma técnica capaz de separar, identificar e quantificar moléculas individuais em amostras de poucos miligramas.

Os resultados foram comparados com amostras do asteroide Bennu, coletadas pela missão OSIRIS-REx da NASA, e com dois meteoritos que caíram na Terra: o Murchison, na Austrália, em 1969, e o Orgueil, na França, em 1864.

Cada corpo rochoso apresentou uma composição diferente.

  • O Ryugu, por exemplo, tem quantidades aproximadamente iguais de purinas (adenina e guanina) e pirimidinas (citosina, timina e uracila).
  • Já o Murchison é mais rico em purinas, enquanto Bennu e Orgueil concentram mais pirimidinas, uma variação que pode estar ligada à quantidade de amônia disponível durante a formação dessas moléculas.

Aliado a isso, o Ryugu já havia entregado outras pistas sobre a química do sistema solar primitivo.

Análises anteriores de suas amostras detectaram sinais de água líquida no passado do asteroide, além de aminoácidos, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e outras moléculas orgânicas complexas.

O asteroide Ryugu visto a uma distância de cerca de 20 km durante missão Hayabusa2 da Agência Espacial Japonesa em 30 de junho de 2018.. — Foto: AXA, Universidade de Tóquio, Universidade Kochi, Universidade Rikkyo, Universidade Nagoya, Instituto Chiba de Tecnologia, Universidade de Meiji, Universidade de Aizu e AIST/Divulgação via REUTERS
O asteroide Ryugu visto a uma distância de cerca de 20 km durante missão Hayabusa2 da Agência Espacial Japonesa em 30 de junho de 2018.. — Foto: AXA, Universidade de Tóquio, Universidade Kochi, Universidade Rikkyo, Universidade Nagoya, Instituto Chiba de Tecnologia, Universidade de Meiji, Universidade de Aizu e AIST/Divulgação via REUTERS

Agora, com a confirmação das cinco nucleobases, os cientistas conseguem completar um inventário dos principais ingredientes moleculares associados à origem da vida.

E esse tipo de evidência não é isolado. Em 2025, amostras do Bennu, analisadas pela NASA, também revelaram a presença das mesmas cinco nucleobases, reforçando a hipótese de que esses compostos estão amplamente distribuídos no sistema solar.

“A detecção universal das cinco nucleobases canônicas em amostras dos asteroides carbonáceos Ryugu e Bennu destaca a potencial contribuição dessas moléculas exógenas para o inventário orgânico que sustentou a evolução molecular pré-biótica e, em última análise, permitiu o surgimento do RNA e do DNA na Terra primitiva”, apontaram os autores na pesquisa.

Fonte: Roberto Peixoto, g1 – 18/03/2026 

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