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‘Não precisa preocupar as crianças’: marido de Gisèle Pelicot a acompanhava a médicos enquanto a dopava

Seu ex-marido Dominique Pelicot recrutava homens para abusar dela enquanto estava desacordada. Caso resultou na condenação de 50 agressores, 30 ainda estão livres.

Abusada durante 10 anos pelo marido e mais de 70 homens, a francesa Gisèle Pelicot decidiu abrir mão do anonimato e tornar pública a violência que sofreu para que o caso não fosse tratado em silêncio.

Ao falar pela primeira vez em detalhes, ela afirmou ter “orgulho de ter compartilhado” a própria história, na tentativa de transformar a experiência em um alerta e incentivar outras vítimas a não se calarem.

Ao optar por tornar o processo público, Gisèle disse que quis evitar que os crimes corressem em segredo judicial. Ela relatou ter ficado impressionada com a quantidade de mulheres que passaram a acompanhá-la nas audiências e a enviar mensagens de apoio.

A decisão também teve como objetivo, segundo ela, mudar o sentimento de culpa frequentemente imposto às vítimas. “A culpa deve ficar apenas com os responsáveis, jamais com as vítimas e sobreviventes”, declarou.

O caso veio à tona após a prisão do então marido, Dominique Pelicot, condenado em dezembro de 2024 a 20 anos de prisão — a pena máxima prevista na França para estupro.

Segundo as investigações, ao longo de uma década, ele dopou a esposa com sedativos, convidou homens para a casa do casal e registrou os abusos em vídeo.

A revelação começou em 2020, quando Gisèle foi chamada a uma delegacia e informada de que aparecia nas imagens apreendidas pela polícia.

“O interrogatório me pareceu estranho. Perguntaram meu nome, há quanto tempo era casada, como eu definiria o senhor Pelicot. ‘Um homem atencioso’, eu disse, ‘faz 50 anos que vivo com esse senhor’. Não entendo como ele chegou a esse ponto”, comenta Gisèle.

Até então, ela acreditava sofrer apenas de lapsos de memória e problemas de saúde, sem imaginar que era vítima de violência sistemática.

Gisèle contou que, durante anos, apresentou sintomas como apagões de memória, confusão mental e alterações na fala.

“Comecei a ter apagões de memória. Não lembrava o que tinha feito na véspera, o que havia comido, se tinha escovado os dentes”, relembra.

Ela buscou médicos de diferentes especialidades, sempre acompanhada do marido. Os exames não indicavam anormalidades, o que dificultou a descoberta dos crimes.

O marido de Gisèle foi condenado a 20 anos de prisão — Foto: Reprodução/TV Globo
O marido de Gisèle foi condenado a 20 anos de prisão — Foto: Reprodução/TV Globo

“Eu ligava pros meus filhos e eles diziam que eu estava com a voz como se tivesse bebido. Um dia peguei o carro e sofri um pequeno acidente. Comecei realmente a me inquietar”, conta.

Quando os exames chegavam sem resultados anormais, o marido dizia a ela que isso era um motivo para esquecer o problema e “não preocupar as crianças”.

Durante dois anos e meio de investigação, autoridades identificaram dezenas de homens envolvidos. Parte deles foi julgada e condenada em Avignon, no sul do país. Outros suspeitos ainda são alvo de apuração.

Os acusados eram, segundo a polícia, homens comuns, moradores de Mazan e de cidades vizinhas, com idades entre 22 e 70 anos. A dimensão do caso provocou comoção nacional e debates sobre violência sexual, consentimento e responsabilização.

Como história veio à tona

O caso só começou a ser desvendado quando Dominique foi detido por filmar mulheres sem consentimento em um supermercado. A partir da análise de equipamentos eletrônicos, investigadores encontraram os registros das agressões.

Apesar da exposição pública e do trauma, Gisèle afirma que tenta reconstruir a vida e manter a estabilidade da família. Ela diz que tornar a história conhecida foi uma forma de ressignificar o que viveu e contribuir para que a sociedade discuta o tema.

“A sociedade precisa evoluir”, afirmou. “Os homens precisam assumir a responsabilidade e mudar o comportamento”, finaliza.

Fonte: Fantástico – 25/02/2026

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