Hoje, cerca de 250 famílias vivem na área e são descendentes de Tia Eva. Com o tombamento, a Comunidade Tia Eva passa a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro.
Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, foi uma mulher negra que marcou a história de Campo Grande (MS). Ex-escravizada, ela conquistou a liberdade no fim do século XIX e, em 1905, fundou uma comunidade que se tornaria um dos mais antigos territórios quilombolas urbanos do país. Hoje, o local reúne cerca de 250 famílias descendentes e se tornou o primeiro quilombo do Brasil tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Considerada uma das mais antigas referências quilombolas urbanas do Brasil, a comunidade foi criada por Eva Maria de Jesus e se consolidou como um importante símbolo de resistência da população negra em Mato Grosso do Sul.
Eva nasceu em Mineiros (GO), foi escravizada e conseguiu a alforria ainda no fim do século XIX. Anos depois, mudou-se para a região onde hoje fica Campo Grande, acompanhada das três filhas.
Na nova terra, comprou um terreno e formou uma comunidade que passou a reunir descendentes e moradores da região. Conhecida pela fé e pelo cuidado com os vizinhos, ela atuava como parteira, benzedeira, curandeira e professora.
Devota de São Benedito, Tia Eva também construiu a primeira igreja da comunidade, que deu origem à atual Igreja de São Benedito. O templo se tornou um dos principais símbolos culturais do local e mantém até hoje uma tradicional festa religiosa organizada pelos descendentes.
Tia Eva morreu em 1926, mas o território fundado por ela continua ativo. Atualmente, centenas de famílias descendentes vivem na comunidade que leva seu nome e preservam a história da fundadora.
Fé e celebração
A Festa de São Benedito é uma das principais tradições da comunidade quilombola Tia Eva, em Campo Grande. O evento celebra a vida e a história de Eva Maria de Jesus e também renova a devoção ao santo.
A celebração começou em 1919. Na época, Tia Eva tinha uma ferida na perna que não cicatrizava havia anos. Com fé em São Benedito, ela fez uma promessa: se fosse curada, construiria uma igreja em homenagem ao santo e realizaria uma festa anual de agradecimento, mantida pelos descendentes.
Após a cura, ela construiu uma igreja de pau a pique dedicada ao santo.
A festa acontece todos os anos em maio, durante a lua cheia, e dura cerca de 10 dias. A programação inclui missas, apresentações culturais, shows e torneios de futebol amador.
Ronaldo Jeferson da Silva, presidente da Associação de Descendentes de Tia Eva, destaca a importância de manter a tradição.
“É importante saber de onde nós viemos, é uma das formas de sabermos para onde vamos, com a festa mantemos viva a história e tradição de um povo.”
A festa é organizada pela própria comunidade com apoio do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul e da prefeitura de Campo Grande.
Quilombo tombado
A Comunidade Tia Eva se tornou o primeiro quilombo do Brasil reconhecido oficialmente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) dentro de um livro do tombo específico para territórios quilombolas.
O reconhecimento foi oficializado nesta terça-feira (10), durante reunião do conselho do instituto no Rio de Janeiro. O Iphan também publicou no Diário Oficial da União o mapa que delimita a área protegida pelo governo federal.
O título reforça a importância histórica da comunidade e ajuda a preservar a memória e a cultura afro-brasileira em Campo Grande.
Comunidade reúne cerca de 250 famílias
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A decisão foi comemorada pelos moradores da comunidade, localizada na Rua Eva Maria de Jesus, que homenageia a fundadora do território quilombola.
Hoje, cerca de 250 famílias vivem na área e são descendentes de Tia Eva.
Segundo o presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva, Ronaldo Jefferson da Silva, o reconhecimento representa a continuidade de uma história de resistência.
“É uma luta de resistência de Tia Eva. Ela veio de Mineiros, em Goiás, buscando exatamente isso: um espaço seu, para dar continuidade à sua linhagem e à sua história. Com o tombamento agora, damos continuidade a esse legado e temos um território protegido pelo Iphan.”
Pedido partiu da própria comunidade
O pedido de tombamento foi feito pela própria comunidade em 2024. A partir da solicitação, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional iniciou um levantamento das referências culturais do território.
Durante cerca de dois anos, técnicos do órgão trabalharam com os moradores para identificar e registrar tradições, histórias e espaços importantes da comunidade.
Com base nesse levantamento, o conselho do instituto decidiu reconhecer oficialmente o território quilombola.
Para João Henrique dos Santos, superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, o tombamento também fortalece a presença do Estado na comunidade.
“A principal mudança é a presença do Estado brasileiro mais próximo da comunidade. O processo identifica as referências culturais e define ações de salvaguarda para que essas tradições continuem existindo dentro da comunidade e para as futuras gerações”, afirma. Ele também destaca o valor simbólico do reconhecimento.
Segundo o superintendente, o tombamento do Quilombo Tia Eva tem importância para o país por causa do protagonismo da líder comunitária e religiosa que dá nome ao território.
Igreja histórica passa por restauração
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Um dos principais símbolos culturais da comunidade é a Igreja de São Benedito, construída em 1919. O templo já é tombado como patrimônio histórico municipal e estadual.
O prédio passa por obras de restauração e fará parte de um novo complexo comunitário. O projeto prevê:
- uma praça;
- um centro de atendimento à comunidade;
- a reforma do salão de eventos.
A obra tem investimento de mais de R$ 2,2 milhões. Apesar das chuvas recentes, o cronograma segue sem atrasos e a previsão é que o complexo seja entregue até junho do próximo ano.
Segundo o gerente de projetos e orçamentos da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), Adanilton Faustino de Souza Júnior, a prioridade inicial foi restaurar a igreja.
“A gente deu prioridade para a igreja por conta da situação estrutural. Além disso, em novembro temos o centenário de Tia Eva, e a ideia é entregar o templo restaurado para as festividades”, afirma.
Reconhecimento emociona moradores
Para a arquiteta Raíssa Almeida Silva, moradora da comunidade que ajudou no levantamento histórico do território junto ao Iphan, o tombamento representa uma conquista histórica.
“É um reconhecimento que a gente recebe com muita gratidão. A comunidade está muito emocionada. Muitas pessoas de Campo Grande ainda não conhecem a história de Tia Eva, e agora essa história ganha visibilidade”, diz.
Com o tombamento, a Comunidade Tia Eva passa a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro, fortalecendo a preservação de sua história e das tradições mantidas por gerações.
Fonte: Thais Libni, g1 MS — Mato Grosso do Sul – 11/03/2026



