Desenho usava trilha sonora de reggaeton e parodiava heróis dos EUA. Documentário inédito exibido pelo Fantástico revela bastidores de sua trajetória e depoimentos de antigos aliados que viraram opositores.
Nicolás Maduro se manteve no poder por 12 anos na Venezuela através de ameaças, articulação política, sorte e o uso de propaganda interna. Um dos símbolos desta propaganda foi o “Superbigode”, animação que usou a TV estatal, VTV, para mostrá-lo “combatendo o monstro dos EUA”.
O desenho criado em 2021 e que seguiu no ar até 2025, logo antes da captura de Maduro pelos EUA, tinha trilha de reggaeton que exaltava o personagem que representava o ditador. O Fantástico mostrou trechos na reportagem que conta a trajetória de Nicolás Maduro – veja acima.
➡️ Os EUA lançaram no sábado (3) um ataque contra a Venezuela com explosões em Caracas. Nicolás Maduro e sua esposa foram capturados e levados a Nova York.
Em setembro de 2025, após o aumento das tensões com os Estados Unidos, uma animação compartilhada por Maduro mostrou o herói com farda militar afirmando que a Venezuela não voltaria a ser colônia e que a milícia representa o espírito do povo disposto a defender a nação. Veja aqui.
O documentário inédito exibido pelo Fantástico deste domingo (4) revela bastidores da trajetória do ditador, com depoimentos de antigos aliados que hoje se tornaram adversários, e mostra como ele virou alvo de Donald Trump.
A ascensão de Nicolás Maduro
Nos anos 1990, Maduro era apenas um motorista de ônibus nas ruas de Caracas. Sua ascensão começou quando se filiou ao Partido Socialista e foi enviado a Cuba para aprender com Fidel Castro. Décadas depois, aplicaria essas lições como presidente de um dos países mais ricos em petróleo do mundo.
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A era Chávez e o papel do petróleo
A Venezuela, antes agrícola e exportadora de café e cacau, descobriu a maior reserva de petróleo do planeta. Na década de 1970, o país viveu uma era de prosperidade: produzia 3 milhões de barris por dia e chegou a ter qualidade de vida comparável à de Paris — para uma pequena elite. Mas a desigualdade alimentou a revolução, comandada pelo tenente-coronel Hugo Chávez.
Após uma tentativa de golpe em 1992, Hugo Chávez foi eleito presidente em 1998. Ao seu lado, desde o início, estava Maduro. O petróleo tinha um papel fundamental no plano da revolução bolivariana. Com o dinheiro do petróleo, nove milhões de famílias tiveram acesso à moradia e muitos começaram a poder sonhar com a faculdade.
“Nós diminuímos a pobreza de 70% para 7%. Foram avanços sociais importantes”, diz Rafael Ramirez, então ministro do Petróleo do governo Chávez.
Maduro, então ministro das Relações Exteriores, articulava alianças com Cuba, Rússia e Irã. Com a saúde debilitada, Chávez escolheu Maduro como sucessor. Meses depois, veio o anúncio de sua morte.
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Consolidação do poder e repressão
Eleito por margem apertada, Maduro enfrentou desconfiança interna. Nomeou o general Manuel Figuera para comandar a inteligência.
“Ele passou a usar essa força como polícia política. Era como a Gestapo estava para o Hitler”, conta Figuera.
Mesmo antigos aliados, como Rafael Ramírez, foram perseguidos e forçados ao exílio.
“Ele mandou me prenderem. Porque ele achou que eu era uma pessoa que poderia tomar o lugar dele. Ele invadiu minha casa e me forçou a me exilar”.
Em 2015, após perder a maioria no Parlamento, Maduro intensificou o controle. A procuradora-geral Luisa Ortega, antes defensora do regime, rompeu após denunciar execuções e abusos.
“Mais de oito mil venezuelanos foram executados pela polícia e pelo Exército”, afirmou.
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Crise econômica e pressão internacional
A decadência da estatal petrolífera PDVSA, corroída por corrupção e falta de manutenção, somou-se às sanções dos EUA. O Lago Maracaibo é o berço do petróleo venezuelano, mas quem mora lá perto conta que lembra pouco os tempos áureos da Venezuela.
O abandono da indústria do petróleo e a instabilidade política foram detectadas pelo radar dos americanos. Donald Trump tentou derrubar Maduro em 2016, apoiando Juan Guaidó como “presidente legítimo”, mas a tentativa de golpe fracassou.
“Acho que maduro e sua mulher queriam ir embora. Mas os russos e cubanos os mandaram ficar. Porque sabiam que se ele saísse o regime colapsaria muito rapidamente”, afirma John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca.
Com a guerra na Ucrânia e sanções ao petróleo russo, Joe Biden suspendeu restrições ao petróleo venezuelano, devolvendo relevância a Maduro no cenário internacional e o Ocidente voltou a se aproximar dele. Até a volta de Donald Trump, que quer a todo custo baixar o preço dos combustíveis para os Estados Unidos.
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Agora, a Venezuela vive a expectativa: o povo continuará a defender seu “herói” ou virará a página dessa história.
Fonte: Fantástico – 05/01/2026


