Após um primeiro áudio denunciando um suposto esquema de propina em medicamentos envolvendo a irmã do presidente vazar na imprensa, novas gravações surgiram com acusações de envolvimento de membros da alta cúpula do governo.
Um escândalo envolvendo áudios vazados, acusações de corrupção e rachas interno vem atingindo a alta cúpula do governo da Argentina desde a semana passada. E respingando no presidente do país, Javier Milei.
O escândalo começou na semana passada, com o vazamento para a imprensa de um áudio gravado por um ex-aliado de Javier Milei, acusando a irmã do presidente, Karina, de corrupção. E foi reaquecido nesta na quarta-feira (27), com novos áudios sobre um suposto esquema de propina foram divulgados.
Braço direito do irmão, Karina Milei é secretária-geral da Presidência na Argentina. Segundo a denúncia feita por Diego Spagnuolo, ex-chefe da Agência Nacional para a Deficiência (Andis) —demitido um dia depois da divulgação do caso—, ela e o subsecretário de gestão institucional do governo, Eduardo “Lule” Menem, estariam cobrando propina de indústrias farmacêuticas para compra de medicamentos para a rede pública.
“Estão roubando. Você pode fingir que não sabe, mas não joguem esse problema para mim, tenho todos os WhatsApp de Karina”, acusa Spagnuolo.
Nesta quarta, após dias sem se pronunciar diretamente sobre o assunto, Javier Milei defendeu a irmã e disse que as acusações contra ela são “mentirosas” em entrevista ao canal argentino C5N. Um dia antes, ele fez sua primeira aparição pública depois do escândalo e estava ao lado de Karina.
“Tudo o que ele diz é mentira, vamos levá-lo à Justiça e provar que mentiu”, afirmou.
A polêmica tem potencial de impactar a governabilidade de Milei, porque expõe o presidente a duas semanas das eleições para a província de Buenos Aires e a dois meses das eleições legislativas na Argentina.
Os índices de aprovação de Milei, que já vinham caindo nas últimas semanas, tiveram uma queda ainda maior devido às suspeitas envolvendo a alta cúpula de seu governo.
Nesta quarta-feira, ele foi alvo de um ataque durante uma carreata em Buenos Aires e teve que ser retirado às pressas do local.
A seguir, entenda o caso:
🔍 Quais são as acusações?
- Diego Spagnuolo afirma que havia uma rede de cobrança de propinas na Andis, com exigência de até 8% sobre o faturamento das farmacêuticas para garantir contratos com o governo – o negócio renderia até US$ 800 mil mensais (cerca de R$ 4,3 milhões).
- Segundo ele, Karina Milei recebia a maior fatia do faturamento, entre 3% e 4% do valor arrecadado e poder decisivo nos bastidores.
- Eduardo “Lule” Menem é apontado como o principal operador do esquema, com apoio de empresários ligados à distribuidora Suizo Argentina.
- Nos novos áudios, Spagnuolo descreve um suposto esquema de “repartição” de contratos.
- O ex-diretor da Andis também ironizou o porta-voz presidencial, Manuel Adorni, por ter supostamente exibido, em uma coletiva de imprensa, uma radiografia de cachorro para falar de suposta fraude em pensões durante o governo Kirchner.
📅 Quando o escândalo começou?
- O caso veio à tona com o vazamento dos áudios na quarta-feira passada (20), provocando uma crise inesperada no governo Milei.
- A repercussão foi imediata, com a Justiça argentina abrindo investigação e realizando buscas na sede da Andis e na empresa Suizo Argentina.
- Na quinta-feira (21), Diego Spagnuolo foi demitido de seu cargo.
- A queixa foi apresentada por Gregorio Dalbón, um dos advogados de Cristina Kirchner, e ocorre no momento em que o Congresso acaba de anular o veto de Milei a uma lei que declarava emergência para pessoas com deficiência e fornecia mais financiamento para o setor. Ele fala em uma “matriz de corrupção”.
- Uma semana depois, nesta quarta-feira (27), novos áudios foram parar na imprensa.
👥 Quem são os envolvidos?
- Karina Milei: irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, acusada de receber parte das propinas. Ela tem uma influência fundamental na hora de decidir quem tem acesso ao presidente e quem não tem e, com poucas exceções, sempre o acompanha em suas viagens e aparições públicas.
- Eduardo “Lule” Menem: braço direito de Karina, é um dos principais agentes políticos do governo argentino. Ele é apontado como um dos principais líderes da suposta rede de corrupção.
- Diego Spagnuolo: ex-chefe da Andis, autor dos áudios e agora investigado. É advogado e, até quinta-feira, era frequentador assíduo da Casa Rosada e confidente próximo de Milei.
- Emmanuel e Jonathan Kovalivker: empresários da Suizo Argentina, empresa intermediária na venda de medicamentos ao Estado. Emmanuel foi encontrado com US$ 266 mil em espécie e Jonathan está foragido.
- Daniel Garbellini: diretor da Andis, também afastado. Era o elo entre a agência e os irmãos Kovalivker. Spagnuolo o chama de “criminoso” em uma das gravações de áudio vazadas: “Me designaram um cara que cuida de tudo relacionado aos meus cofres”.
⚖️ Como estão as investigações?
- A Justiça argentina realizou pelo menos 16 buscas na sexta-feira (22).
- Nessa operação, foram apreendidos celulares, máquinas de contar dinheiro e centenas de milhares de dólares em espécie: US$ 266 mil – R$ 1,5 milhão, na cotação atual.
- Spagnuolo é um dos cinco réus até o momento no processo que investiga os supostos subornos, acusações de corrupção, administração fraudulenta e violações à ética pública.
- O juiz federal Sebastián Casanello, que está cuidando do caso, proibiu a saída dos investigados do país como medida cautelar.
- A veracidade dos áudios ainda não foi comprovada pela Justiça.
- Quatro celulares apreendidos durante os mandados de busca, incluindo o de Diego Spagnuolo, ex-chefe da Andis e autor dos áudios que deram origem ao caso, estão sendo analisados pela perícia e são considerados provas-chave para confirmar ou refutar as acusações de corrupção.
🗣️ O que o governo falou?
- Após se manter em silêncio nos primeiros dias, Javier Milei defendeu a irmã e chamou as acusações de “mentirosas”, uma semana depois do primeiro áudio vazar.
- Na segunda-feira (25), o presidente demonstrou apoio à irmã e posou sorridente ao seu lado em 1ª aparição pública após as denúncias, e criticou o Congresso e a imprensa.
- O chefe de gabinete, Guillermo Francos, afirmou que o presidente está “tranquilo” e sugeriu que se trata de uma perseguição política em meio à campanha eleitoral.
- Martín Menem, presidente da Câmara dos Deputados e primo de Lule, defendeu os acusados: “Ponho as mãos no fogo por Lule Menem e Karina Milei”, disse, classificando os áudios como uma “monumental operação política”.
- Ao informar sobre a saída de Spagnuolo da Andis, um porta-voz do governo anunciou uma intervenção na agência e prometeu uma auditoria.
⚠️ Caso pode impactar Milei?
- O escândalo provocou uma queda ainda maior nos índices de aprovação do presidente argentino, que já vinham caindo nas últimas semanas. Ele sofreu um ataque durante uma carreta nesta quarta-feira (27).
- O caso tem potencial de impactar aliados de Milei nas eleições legislativas de outubro e na disputa para o governo da província da capital, Buenos Aires, que ocorre daqui a duas semanas.
- O Parlamento estuda abrir uma CPI para investigar as denúncias contra a irmã de Milei, o que aumentaria o desgaste político (saiba mais no vídeo abaixo).
- Caso Karina seja considerada culpada, o presidente argentino perde potencialmente seu braço direito e também arranha o discurso anticorrupção que o levou ao poder, avaliou a colunista do g1 Sandra Cohen.
Fonte: Juliana Maselli, g1 — Rio de Janeiro – 28/08/2025