domingo, julho 5, 2026
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Estudante flagra fenômeno raro que faz água do mar brilhar em azul

Imagem foi feita pela estudante Estrela Guadalupe da Silva, de 20 anos, na Praia de Requenguela, em Icapuí, litoral cearense. Pesquisadora explica o g1 do que se trata o ‘fogo azul’ na água.

A estudante Estrela Guadalupe da Silva, de 20 anos, gravou no último domingo (28) o momento em que o mar “brilhou” na Praia de Requenguela, em Icapuí, no litoral leste do Ceará. O fenômeno, chamado de bioluminescência, acontece por causa da presença de microrganismos na água e chamou atenção após o vídeo viralizar nas redes sociais.

Estrela mora em Icapuí e passava pela praia a caminho da casa de uma amiga quando decidiu fazer a gravação. Segundo ela, o brilho no mar já vinha sendo visto havia cerca de um mês. Por isso, resolveu publicar o vídeo no Instagram, onde mantém um perfil sobre turismo.

“Gravei por gravar, postei, e acabou dando uma proporção grande. O pessoal ficou muito admirado com a questão dos microorganismos. Quando eu vi pela primeira vez, falei com os pescadores aqui da região. Tem um pessoal que tem um conhecimento mais antigo sobre o fenômeno, chamam até de ‘fogo no mar'”, relata Estrela ao g1.

🔥 Esse “fogo no mar”, como é conhecido por pescadores, é causado por organismos microscópicos, geralmente microalgas. Eles emitem luz quando sofrem algum estímulo físico, como o movimento das ondas, passos na areia ou contato com a água.

Quem explica é Andréa de Oliveira da Rocha, pesquisadora do Instituto de Ciências do Mar, da Universidade Federal do Ceará.

“É um fenômeno que ocorre em várias regiões da costa brasileira. Já tinha ouvido falar que acontecia em Icapuí nas áreas das salinas, porque um pescador nos contou. Mas a gente não tinha, até agora, nenhuma amostra da região. Esses organismos são unicelulares e, por isso, não podem serem vistos a olho nu. Mas eles devem estar em alta concentração na água para que ocorra uma quantidade de emissão de luz que possamos perceber”.

Como os microrganismos encontrados na praia cearense ainda não foram analisados, não é possível confirmar qual espécie causou o brilho. Em outros casos registrados no Brasil, o fenômeno foi associado ao dinoflagelado Noctiluca scintillansEm dezembro de 2025, por exemplo, a bioluminescência foi vista em Florianópolis. Também há registros no Rio de Janeiro e no Paraná.

“Esse fenômeno é uma reação química. Acontece quando você tem uma grande quantidade de dinoflagelados que fazem essa bioluminescência. Quando a água está parada, não tem luminescência. Mas quando você joga uma pedra ou mexe na água, é que forma o fenômeno”, acrescenta a pesquisadora.

“Os organismos precisam de um gatilho físico. Eles estão ali na água e quando tem o gatilho, emitem a luz”, detalha.

Outros registros mostram o fenômeno em Icapuí. — Foto: Imagens cedidas por Thiago Tavares (@thiagoicapui)
Outros registros mostram o fenômeno em Icapuí. — Foto: Imagens cedidas por Thiago Tavares (@thiagoicapui)

O brilho só pode ser visto à noite, em locais escuros. Em geral, o contato com esses microrganismos não é tóxico e não oferece risco aos banhistas. Mesmo assim, a pesquisadora recomenda cautela aos mais curiosos, porque a espécie presente em Icapuí ainda não foi identificada.

“Eles emitem essa luz para atrair animais que vão se alimentar dos predadores deles. Essa é a hipótese mais aceita para explicar [o brilho]. Mas é realmente uma reação química de uma enzima luciferina com uma substância chamada luciferase, que aí vai emitir essa luz. Como a gente não sabe qual é a espécie que está formando aqui, talvez o termo mais certo seja microrganismos ou protistas”, esclarece.

‘Parecia coisa de outro mundo’

O fotógrafo documental e produtor audiovisual Thiago Tavares, de 35 anos, é o responsável pelas fotografias usadas nesta matéria. Nascido e criado em Icapuí, ele conta ter visto o fenômeno pela primeira vez em meados de 2008, em um passeio com os amigos:

“Eu fui com alguns amigos e amigas lá para a passarela à noite tomar banho, era bem isolado. Quando aconteceu o primeiro mergulho, todo mundo ficou assustado, porque ficou tudo brilhoso. Parecia coisa de outro mundo. Foi a primeira vez então que eu vi o fenômeno com meus próprios olhos, ali dentro da água. Mas o relato de que acontece esse fenômeno aqui é de décadas atrás, muitos anos mesmo”, conta ao g1.

Desde que começou a trabalhar com fotografia, ele se especializou na vida noturna e vinha tentando registrar a bioluminescência na Praia de Requenguela. O primeiro acerto veio em 2022, quando fotografou o pescador e amigo Gildasio, usando a técnica da longa exposição:

“Eu configuro a câmera para capturar a imagem por muitos segundos. O sensor fica captando a luz do ambiente. Em vez de ser apenas uma fração de milhares de segundos, fica ali 10, 20 ou até 30 segundos. Por isso você tem algumas imagens mais claras, outras mais escuras. A do Gil, em específico, usei a câmera e um flash para fazer uma composição de imagem diferente. Tanto que você vê a imagem dele congelada e a sombra”, explica.

Confira abaixo algumas imagens do fotógrafo:

Fotógrafo registra 'mar que brilha' no CE. — Foto: Imagens cedidas por Thiago Tavares (@thiagoicapui).
Fotógrafo registra ‘mar que brilha’ no CE. — Foto: Imagens cedidas por Thiago Tavares (@thiagoicapui).

Fotógrafo registra 'mar que brilha' no CE. — Foto: Imagens cedidas por Thiago Tavares (@thiagoicapui).
Fotógrafo registra ‘mar que brilha’ no CE. — Foto: Imagens cedidas por Thiago Tavares (@thiagoicapui).

Fotógrafo registra 'mar que brilha' no CE. — Foto: Imagens cedidas por Thiago Tavares (@thiagoicapui).
Fotógrafo registra ‘mar que brilha’ no CE. — Foto: Imagens cedidas por Thiago Tavares (@thiagoicapui).

A repercussão do vídeo da Estrela e das fotos de Thiago tem atraído ainda mais turistas para aquela região de Icapuí. A cidade tem um pouco mais de 20 mil habitantes, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e é conhecida por praias de águas calmas, paisagens naturais preservadas e piscinas naturais.

Os moradores nativos, no entanto, deixam um pedido:

“Ontem mesmo o local estava lotado, tinha muita gente. Os pescadores é que não gostam muito, porque é um ponto de pesca, e acabam jogando pedras, fica ruim quando eles puxam a rede. É importante ter cuidado”, conclui Thiago.

Fonte: Gabriela Feitosa, g1 CE – 05/07/2026 

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