segunda-feira, outubro 5, 2026
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Nobel de Medicina 2026 vai para Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel pela descoberta da optogenética

Vencedores levam o prêmio de 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,2 milhões). As láureas em Física, Química, Literatura e Paz serão entregues ao longo da semana; já a de Economia será divulgada na próxima segunda (12).

Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel levaram o Nobel de Medicina de 2026 por suas descobertas sobre como as células nervosas moldam memórias, sentimentos e comportamentos no cérebro vivo.

Os três cientistas dividirão o prêmio de 12 milhões de coroas suecas (R$ 6,2 milhões) concedido pela Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska, da Suécia. O anúncio foi feito na manhã desta segunda-feira (5).

As descobertas laureadas estão relacionadas aos canais iônicos ativados pela luz e à optogenética, método que torna possível mostrar como as células nervosas se comportam no cérebro vivo.

➡️O método inaugurado pelos cientistas é considerado uma das bases para uma nova era da neurociência, ajudando na compreensão do cérebro. Na medicina, a técnica está sendo utilizada em tentativas de restaurar a visão em pessoas com deficiência visual.

‘Interruptor’ das células

A pesquisa dos laureados revelou como as células nervosas são capazes de controlar memórias e comportamentos no cérebro vivo.

A descoberta começou com uma pergunta sobre o funcionamento de uma alga unicelular chamada Chlamydomonas. Peter Hegemann queria entender como o organismo consegue nadar em direção a uma fonte de luz.

No início dos anos 2000, Hegemann e Georg Nagel descobriram na superfície da alga uma proteína com propriedades especiais, chamada canalrodopsina. Quando a proteína é iluminada com luz azul, um canal se abre e permite a entrada de íons carregados na célula. Isso provoca um impulso elétrico.

Vencedores do Nobel de Medicina Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel. — Foto: Reprodução/Nobel Prize
Vencedores do Nobel de Medicina Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel. — Foto: Reprodução/Nobel Prize

“Tudo começou com uma pergunta aparentemente simples: como uma alga microscópica sabe nadar em direção à luz? Ninguém ali estava procurando tratamento para doença nenhuma. Foi a ciência básica, movida pela curiosidade, que abriu essa porta”, afirma Victor Santos, neurocientista, professor de neuroanatomia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e pesquisador apoiado pelo IDOR Ciência Pioneira.

Os pesquisadores também descobriram que, quando a proteína era colocada em diferentes tipos de células, elas passavam a responder à luz.

👉Quando a proteína recebe luz azul, ela muda de estado e abre um canal através da membrana da célula. Íons carregados conseguem então entrar na célula, provocando uma mudança elétrica.

O grupo percebeu ainda que, quando colocavam a proteína em outros tipos de células, elas também passavam a ser sensíveis à luz.

Karl Deisseroth levou a descoberta para as células nervosas. Ele introduziu o gene responsável pela produção da canalrodopsina em neurônios de ratos. Ao iluminar essas células com luz azul, conseguiu desencadear um sinal nervoso – quase como um interruptor das células controlado pela luz.

O avanço foi publicado em 2005. Dois anos depois, Deisseroth conseguiu fazer o mecanismo funcionar no cérebro de camundongos vivos.

Esse método de controlar sinais nervosos usando luz passou a ser chamado de optogenética.

Por que a optogenética mudou a neurociência?

O método transformou a neurociência porque permitiu aos pesquisadores controlar a atividade de neurônios específicos com grande precisão.

Antes, métodos como a estimulação elétrica podiam atingir diferentes células e estruturas ao mesmo tempo, dificultando saber qual delas estava relacionada a determinado comportamento ou função.

“A optogenética mudou esse cenário. Ela permite ativar ou inibir populações específicas de neurônios com precisão temporal e celular, inclusive em animais durante o comportamento, possibilitando testar relações entre a atividade de circuitos neurais e funções como memória, medo e recompensa”, afirma Cristiane Furini professora da Escola de Medicina da PUCRS, pesquisadora do Instituto do Cérebro da PUCRS e membro afiliado da Academia Brasileira de Ciências.

Com a técnica, os cientistas podem fazer com que determinados neurônios produzam proteínas sensíveis à luz e, depois, usar a iluminação para ativar ou inibir essas células. Isso permite testar diretamente o que acontece quando um grupo específico de neurônios é acionado ou silenciado.

A ferramenta abriu uma nova possibilidade para estudar a relação entre a atividade de circuitos cerebrais e fenômenos como memória, emoções e comportamento.

Em vez de apenas observar quais regiões do cérebro estão ativas, os pesquisadores passaram a poder interferir de maneira controlada nesses circuitos e verificar quais efeitos essa intervenção produz.

Assim, a optogenética passou a ser uma ferramenta importante para investigar como o cérebro funciona e para compreender o papel de diferentes grupos de neurônios em condições normais e em doenças neurológicas.

Como isso ajuda a humanidade?

Essa possibilidade abriu caminho para investigar com mais precisão os circuitos neurais envolvidos em memórias, sentimentos e comportamentos, além de mecanismos relacionados a distúrbios neurológicos e psiquiátricos.

“Para quem pesquisa sobre a neurobiologia da memória, por exemplo, essa ferramenta representa uma mudança particularmente importante, pois podemos pensar na memória não apenas como algo armazenado em uma determinada região do cérebro, mas como resultado da atividade coordenada de populações de neurônios e de diferentes circuitos neurais”, ressalta Cristiane.

Segundo o Comitê do Nobel, antes desses avanços os pesquisadores já investigavam quais regiões do cérebro estavam associadas a determinadas funções, mas os métodos disponíveis não permitiam estabelecer relações de causa e efeito.

“A optogenética oferece oportunidades para mapear o cérebro de uma maneira que antes só podíamos sonhar”, afirma Per Svenningsson, presidente do Comitê do Nobel de Fisiologia ou Medicina.

Além de ser uma ferramenta de pesquisa, a tecnologia também começa a ser investigada em aplicações médicas. Segundo o Comitê do Nobel, a optogenética está sendo usada em estudos que buscam restaurar a visão de pessoas com deficiência visual.

“Na clínica, ainda estamos no começo, com estudos iniciais como os que tentam restaurar parte da visão. Mas o maior presente dessa descoberta já está aí: ela nos deu um mapa causal do cérebro. E é desse conhecimento que vão nascer as terapias do futuro”, afirma Santos.

Quem são os ganhadores

  • Karl Deisseroth, nascido em 1971, tem doutorado e graduação em Medicina pela Universidade Stanford, EUA. É professor de Bioengenharia e de Psiquiatria e Ciências do Comportamento no Howard Hughes Medical Institute e na Universidade Stanford, EUA.
  • Peter Hegemann, nascido em 1954, tem doutorado no Instituto Max Planck de Bioquímica, Martinsried, Alemanha. É professor sênior Hertie de Neurociência na Universidade Humboldt de Berlim, Alemanha.
  • Georg Nagel, nascido em 1953, tem doutorado em 1988 pela Universidade de Frankfurt, Alemanha. É professor de Fisiologia Molecular de Plantas no Departamento de Fisiologia Molecular de Plantas e Biofísica — Botânica I na Universidade de Würzburg, Alemanha.

Nobel 2025

No ano passado, o prêmio de Medicina foi para três cientistas, os americanos Mary E. Brunkow e Fred Ramsdell e o japonês Shimon Sakaguchi, pela pesquisa que descobriu como o sistema imunológico evita atacar o próprio corpo.

Desde 1901, mais de cem Prêmios Nobel em Fisiologia ou Medicina (como é formalmente chamado) foram distribuídos.

A distinção científica de renome mundial só não foi concedida em nove ocasiões: em 1915, 1916, 1917, 1918, 1921, 1925, 1940, 1941 e 1942.

Ao longo dos anos, das 232 pessoas agraciadas com o Nobel em Medicina, apenas 14 eram mulheres.

Curiosidades sobre o Nobel de Medicina

O ganhador mais jovem foi Frederick G. Banting, que recebeu o Nobel da área em 1923, com apenas 31 anos, por descobrir a insulina. Já o mais velho foi Peyton Rous, premiado em 1966, aos 87 anos, por sua descoberta de vírus que causam tumores.

Entre os 232 vencedores do Prêmio Nobel de Medicina, 14 são mulheres. Um destaque especial é Barbara McClintock, a única mulher a ganhar o prêmio sozinha, em 1983, pela descoberta dos “elementos genéticos móveis”.

Outras mulheres que marcaram a história do prêmio incluem Gerty Cori (1947), pelas descobertas sobre o glicogênio; Rita Levi-Montalcini (1986), pelos estudos sobre fatores de crescimento; Françoise Barré-Sinoussi (2008), pela descoberta do HIV.

Embora ninguém tenha recebido o Nobel de Medicina mais de uma vez, em outras categorias há pessoas que já foram premiadas duas vezes (entenda mais abaixo). Desde 1974, o prêmio NÃO pode ser entregue a pessoas falecidas, a menos que o óbito ocorra depois do anúncio oficial.

Um caso especial aconteceu em 2011, quando foi descoberto que o laureado Ralph Steinman havia falecido dias antes do anúncio, mas como o comitê não sabia de sua morte, ele manteve o prêmio.

Nobel 2026

A láurea em Medicina é sempre a primeira a ser anunciada. Os prêmios em Física, Química, Literatura e Paz serão entregues ao longo da semana; já a láurea em Economia será divulgada na próxima segunda (12). Veja o cronograma:

  • Medicina: segunda-feira, 5 de outubro
  • Física: terça-feira, 6 de outubro
  • Química: quarta-feira, 7 de outubro
  • Literatura: quinta-feira, 8 de outubro
  • Paz: sexta-feira, 9 de outubro
  • Economia: segunda-feira, 12 de outubro

Veja, abaixo, perguntas e respostas sobre o prêmio.

O que é o Prêmio Nobel?

A láurea foi criada pelo químico e empresário Alfred Nobel. Inventor da dinamite em 1867, o sueco doou a maior parte de sua fortuna em testamento para a criação de prêmios de física, química, medicina, literatura e paz (o prêmio de economia foi criado anos mais tarde).

O documento dizia que os prêmios deveriam ser concedidos “àqueles que, durante o ano anterior, tenham conferido o maior benefício à humanidade”.

Um busto do fundador do Prêmio Nobel, Alfred Nobel, em exibição durante cerimônia de entrega da láurea em 2018, em Estocolmo. — Foto: Henrik Montgomery/Pool Photo via AP, File
Um busto do fundador do Prêmio Nobel, Alfred Nobel, em exibição durante cerimônia de entrega da láurea em 2018, em Estocolmo. — Foto: Henrik Montgomery/Pool Photo via AP, File

Contudo, hoje em dia, conforme explica Juleen Zierath, membro do Instituto Karolinska, o júri do Nobel de Medicina, essa regra não é mais tão levada à risca.

“Você pode ter feito essa descoberta em um estágio muito inicial de sua carreira de pesquisa, ou pode ter feito essa descoberta em um estágio muito avançado de sua carreira de pesquisador”, ressalta a pesquisadora.

Como o prêmio é escolhido?

Todos os anos, o Comitê do Nobel envia um pedido de nomeação para membros da comunidade científica.

Isso significa que alguns candidatos elegíveis recebem um convite especial para enviar seus nomes. Sem esse convite, nenhum postulante pode concorrer ao prêmio.

“Você não pode se nomear, mas membros de comunidades científicas, reitores de faculdades de medicina, ex-laureados com o Prêmio Nobel e outros que trabalham no ramo científico mais amplo e que receberam esse pedido podem fazer uma indicação”, diz Zierath.

Quantas pessoas podem compartilhar o mesmo prêmio?

Até três pessoas podem compartilhar um Prêmio Nobel, ou uma organização pode ganhar a láurea da Paz.

A Fundação Nobel, responsável por realizar os desejos do seu fundador, ressalta que essa regra está descrita no testamento de Alfred Nobel.

A medalha do Prêmio Nobel. — Foto: The Nobel Prize Foundation
A medalha do Prêmio Nobel. — Foto: The Nobel Prize Foundation

“Em nenhum caso o valor do prêmio pode ser dividido entre mais de três pessoas”, destaca um trecho do documento. Alguns pesquisadores, porém, criticam essa escolha e afirmam que as descobertas científicas de hoje em dia são muito mais coletivas: um trabalho de vários pesquisadores.

A láurea pode ser concedida postumamente? Tem limite de idade?

Não, um Prêmio Nobel não pode ser concedido postumamente.

Apesar, disso, a Fundação ressalta que, desde 1974, se o destinatário do prêmio falecer após o anúncio, a láurea ainda poderá ser concedida.

Sobre o limite de idade, o prêmio também não tem uma regra a respeito.

“O que eu diria é que, na maioria das vezes, levamos muitos anos até que o campo científico reconheça que a descoberta que você fez é uma distinção que deveria ser considerada para um Prêmio Nobel. Então, às vezes você tem que ser bastante paciente”, ressalta Zierath.

Fonte: Júlia Carvalho, g1 – 05/10/2026

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