segunda-feira, setembro 28, 2026
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Os protestos em massa em Madri provocados por despejo de idosa de 87 anos de apartamento alugado

Centenas de pessoas passaram a noite acampadas em praça em protesto motivado pelo despejo de Maricarmen, uma mulher de 87 anos, do imóvel que alugava em Madri.

Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar neste fim de semana no centro de Madri depois que o despejo de uma idosa de 87 anos do apartamento onde vivia como inquilina expôs a gravidade da crise da moradia na Espanha.

Cerca de 25 mil pessoas se manifestaram no sábado (26/09) na capital, segundo números do governo, e aproximadamente 500 acamparam na Puerta del Sol — uma das praças mais movimentadas da capital espanhola.

Os manifestantes reivindicam mudanças na legislação sobre aluguéis e despejos. Eles montaram suas barracas na praça em frente à sede do governo regional de Madri, e anunciaram que têm a intenção de permanecer ali até que as autoridades espanholas atendam às suas reivindicações sobre habitação.

Munidos de diversas faixas — com slogans como “Todos somos Maricarmen” (o nome da idosa de 87 anos que foi despejada), “Expropriar os rentistas” e “Ação direta e ocupação” — além de bandeiras da Palestina e símbolos de diversos sindicatos e movimentos, os participantes organizaram assembleias, oficinas, discursos e apresentações musicais no centro da Puerta del Sol.

O Sindicato dos Inquilinos de Madri, que defende a proibição da compra de imóveis quando o comprador não for residir neles, divulgou o lema: “Ou o rentismo cai ou o governo cai”. Rentista, nesse caso, se refere a proprietários que alugam imóveis e não precisam viver neles.

As críticas são dirigidas ao governo nacional e às autoridades regionais e municipais.

O estopim foi o despejo de María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen. A idosa de 87 anos teve que deixar na quarta-feira passada o apartamento em Madri onde vivia de aluguel havia sete décadas.

Os tribunais consideraram encerrado o contrato de 1956 que ela havia herdado dos pais e deram razão à Urbagestión, empresa proprietária do imóvel, que buscava recuperá-lo.

As mobilizações ocorrem em um momento em que os preços de compra e aluguel de imóveis na Espanha, especialmente nas grandes cidades, aumentaram até níveis proibitivos para quem recebe salários baixos e médios.

Manifestantes em barracas na praça Puerta del Sol em Madri, na Espanha, protestam contra despejo de idosa de 87 anos em 28 de setembro de 2026. — Foto: REUTERS/Juan Medina
Manifestantes em barracas na praça Puerta del Sol em Madri, na Espanha, protestam contra despejo de idosa de 87 anos em 28 de setembro de 2026. — Foto: REUTERS/Juan Medina

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, os preços aumentaram 12,2% na comparação anual no segundo trimestre de 2026 e 12,9% na Comunidade de Madri.

Isso coincide com uma escassez cada vez mais grave da oferta: entre 2021 e 2025 foram construídas 750 mil moradias a menos do que o necessário para atender à crescente demanda de novos lares, segundo dados do Banco da Espanha.

O Sindicato dos Inquilinos exige contratos por prazo indeterminado ou renovação automática, de modo que o inquilino possa decidir se deseja permanecer ou não no imóvel pelo tempo que desejar após o término do prazo inicial acordado.

E também defende o congelamento dos preços dos aluguéis, a proibição de despejos sem oferta de moradia alternativa e a punição ou proibição de aluguéis por temporada e por quartos, além da expropriação de imóveis pertencentes a empresas e fundos de investimento que chama de “fundos abutres”.

Manifestantes em barracas na praça Puerta del Sol em Madri, na Espanha, protestam contra despejo de idosa de 87 anos em 28 de setembro de 2026. — Foto: REUTERS/Juan Medina

Manifestantes em barracas na praça Puerta del Sol em Madri, na Espanha, protestam contra despejo de idosa de 87 anos em 28 de setembro de 2026. — Foto: REUTERS/Juan Medina

Alguns economistas questionam essas propostas e defendem que aumentar a oferta de moradias é o único remédio possível para aliviar a atual situação de escassez.

Eles alertam que limitar os aluguéis e impedir que os proprietários recuperem seus imóveis pode agravar ainda mais a situação, já que muitos poderiam desistir de alugá-los, além de desestimular investimentos para reformá-los ou construir novos.

Um estudo do Banco da Espanha de 2020 já apontava que tetos de preços para aluguéis podem baratear os contratos regulados no curto prazo, mas também reduzir a quantidade de moradias disponíveis, piorar sua manutenção e encarecer as moradias que ficam fora desses limites.

O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que trabalha para levar um decreto sobre moradia à reunião do Conselho de Ministros da próxima terça-feira que responda a parte das demandas dos manifestantes.

Como Sánchez governa em minoria, ele pediu publicamente um esforço de outros grupos parlamentares para aprovar o decreto, cujo conteúdo continua em negociação.

A vice-presidente Yolanda Díaz, da legenda de esquerda Sumar, parceira do PSOE na coalizão governista, apoiou a mobilização e pediu medidas contra os fundos imobiliários.

A porta-voz do Sindicato dos Inquilinos, Alicia del Río, advertiu no domingo que o acampamento continuará caso o decreto não inclua contratos por prazo indeterminado, segundo a agência EFE.

A organização também pediu às centrais sindicais CCOO e UGT que convoquem uma greve geral caso a norma não seja aprovada.

O Partido Popular (PP), principal força de oposição, de centro-direita, apresentou propostas alternativas, como eliminar as áreas onde os aluguéis podem ser limitados e ampliar as garantias para facilitar a compra de imóveis por jovens.

A Prefeitura de Madri, governada pelo PP, criticou o acampamento e acusou o governo central espanhol de “omissão de funções”.

O governo municipal pediu o restabelecimento da normalidade na Puerta del Sol e questionou o fato de o protesto ter continuado além das condições autorizadas.

Madri não foi a única cidade com protestos por moradia: Barcelona, Alicante e Santiago de Compostela também registraram mobilizações após o despejo de Maricarmen.

Segundo a imprensa espanhola, protestos foram convocados em 40 cidades do país para exigir medidas contra a alta dos aluguéis.

Fonte: Por Atahualpa Amerise – 28/09/2026 

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