Imagens são do Inpe e mostram o deslocamento da frente fria e a mudança na direção dos ventos entre a manhã e a noite da última quarta-feira (29). Rajadas causaram mortes, derrubaram árvores, destelharam imóveis e afetaram transportes em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Imagens de satélite mostram o deslocamento do sistema que provocou as rajadas de mais de 120 km/h registradas em São Paulo e no Rio de Janeiro na última quarta-feira (29).
A sequência, produzida com dados da plataforma de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), acompanha a movimentação das nuvens e dos ventos próximos à superfície entre 10h e 19h, no horário de Brasília.
▶️ As linhas brancas indicam a direção e o deslocamento do vento. Ao longo das horas, é possível observar a mudança no fluxo sobre São Paulo, o Rio de Janeiro e o oceano.
As imagens mostram também a nebulosidade associada à frente fria avançando em direção ao litoral do Sudeste.
À frente desse sistema, o encontro do ar frio e úmido com a massa de ar quente e seco que predominava na região favoreceu a formação de uma frente de rajada.
“Esse contraste entre duas massas de ar de propriedades muito diferentes favoreceu a formação de ventos muito intensos. Na meteorologia, chamamos isso de frente de rajada”, explica ao g1 César Soares, meteorologista da Climatempo.
“O Sudeste estava muito quente e seco, enquanto havia uma frente fria se formando no Sul do Brasil. O ar mais úmido e frio avançou junto com esse sistema e entrou em choque com o ar mais quente e seco que estava na região”, diz.
➡️ Às 11h no horário de Brasília, a maior concentração de nuvens aparecia sobre o Paraná e avançava em direção a São Paulo e ao oceano.
➡️ Às 14h de Brasília, a nebulosidade já avançava em direção ao litoral paulista e ao Rio de Janeiro.
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➡️ Às 16h30 no horário de Brasília, a faixa de nuvens já cobria o leste de São Paulo e grande parte do Rio de Janeiro.
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➡️ Por fim, às 18h no horário de Brasília, já durante o anoitecer, as nuvens continuavam visíveis sobre São Paulo, o Rio de Janeiro e o oceano. Os tons de amarelo e laranja sobre o Paraná e o sul de São Paulo indicam nuvens com topos mais frios.
A mudança ocorre porque, sem a luz do Sol, a composição em cores naturais deixa de mostrar a superfície com a mesma nitidez. A visualização passa então a usar dados do infravermelho, que permitem acompanhar as nuvens também durante a noite.
Os tons indicam a temperatura de brilho observada pelo satélite da plataforma do Inpe. Em geral, áreas mais frias correspondem a nuvens com topos mais altos, enquanto temperaturas maiores aparecem em nuvens mais baixas ou na própria superfície.
➡️ As cores, porém, não representam diretamente a intensidade da chuva. Elas ajudam a identificar a altura e o desenvolvimento das nuvens.
❗ Também não é possível medir pelas imagens as rajadas pontuais que superaram 120 km/h. Esses valores foram registrados por estações e equipamentos em solo. O satélite permite acompanhar a evolução do sistema e a área sobre a qual ele se deslocou.
O que é uma frente de rajada?
A frente de rajada é uma faixa de ventos fortes que se desloca à frente de uma frente fria ou de uma área de tempestade.
Ela se forma quando o ar mais frio e denso avança próximo ao solo e empurra rapidamente o ar quente que estava sobre a região.
Esse movimento funciona como uma espécie de onda de ar que se espalha horizontalmente pela superfície.
Por isso, as rajadas podem chegar de forma repentina e atingir várias cidades em sequência, mesmo em pontos onde a chuva ainda não começou ou ocorre com pouca intensidade.
➡️ É como se o ar frio avançasse rente ao solo e empurrasse o ar quente para cima e para a frente.
Esse deslocamento pode formar uma linha extensa de ventos, capaz de percorrer dezenas ou até centenas de quilômetros. Isso ajuda a explicar por que a ventania atingiu áreas do interior, da capital e do litoral paulista em um intervalo relativamente curto.
❗ A frente de rajada, porém, não é um tornado.
No tornado, o vento gira em torno de um eixo e atinge uma faixa geralmente mais estreita. Na frente de rajada, os ventos se espalham de maneira mais horizontal e podem afetar uma área muito mais ampla.
Também não é necessário que haja chuva forte exatamente no ponto atingido. Em alguns casos, a rajada chega antes da precipitação ou avança para regiões onde chove pouco.
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Por que os ventos passaram dos 120 km/h?
No caso desta quarta-feira (29), a ventania avançou do interior em direção ao litoral de São Paulo e depois alcançou áreas do Rio de Janeiro. As velocidades ficaram muito acima das rajadas normalmente registradas durante a passagem de uma frente fria.
O principal fator foi o contraste muito acentuado entre o ar quente e seco que estava sobre o Sudeste e o ar frio e úmido que chegou com o sistema.
➡️ Quanto maior a diferença entre as duas massas de ar, mais intensa pode ser a reação da atmosfera.
O ar frio é mais denso e tende a avançar por baixo do ar quente. Nesse processo, o vento pode acelerar próximo à superfície. A organização desse fluxo à frente da frente fria formou a frente de rajada.
A velocidade também foi favorecida pelo deslocamento rápido do sistema. Em poucas horas, a frente fria saiu do Sul, atravessou áreas do Paraná e de São Paulo e chegou ao litoral do Sudeste.
⚠️ Embora houvesse previsão de ventos fortes, a intensidade observada superou 120 km/h em alguns municípios paulistas.
Segundo a Defesa Civil estadual, as rajadas chegaram a:
- 124,9 km/h em Itaí e Itaporanga;
- 117 km/h em Taquarituba;
- 113 km/h em Paranapanema;
- 111 km/h em Itanhaém;
- 104,8 km/h em Itaberá.
Os maiores valores foram registrados principalmente na região de Itapetininga e em áreas do litoral paulista.
Ventos provocaram queda brusca de temperatura
Além da força das rajadas, a passagem da frente de rajada também provocou uma redução rápida da temperatura.
Em alguns pontos da Região Metropolitana de São Paulo, os termômetros passaram de cerca de 29°C para 20°C ou 21°C em aproximadamente uma hora.
➡️ A queda ocorreu porque o ar quente que estava próximo à superfície foi rapidamente substituído pelo ar mais frio trazido pela frente.
Essa mudança repentina é uma das características que podem acompanhar a passagem de uma frente de rajada.
O vento também pode mudar de direção em poucos minutos. Antes da chegada do sistema, costuma predominar o fluxo de ar mais quente. Depois da passagem, os ventos passam a transportar o ar mais frio.
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O tornado no RS foi causado pelo mesmo sistema?
A frente fria que atingiu o Sudeste foi a mesma que provocou temporais e estragos no Sul do país.
No Rio Grande do Sul, o sistema encontrou uma atmosfera quente e úmida, condição que favoreceu a formação de tempestades severas. Uma dessas tempestades deu origem ao tornado que atingiu Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho na terça-feira (28).
Apesar de estarem associados à passagem da mesma frente fria, o tornado no Rio Grande do Sul e a frente de rajada no Sudeste são fenômenos diferentes.
➡️ A principal diferença está na forma e na extensão dos ventos:
- o tornado é uma coluna de ar em rotação que toca o solo;
- a frente de rajada é uma linha de ventos que se espalha horizontalmente;
- o tornado costuma atingir uma faixa mais estreita;
- a frente de rajada pode alcançar diversas cidades.
❗ Não houve indicação de tornado nas áreas de São Paulo e do Rio de Janeiro atingidas pelas rajadas mais intensas.
Os danos no Sudeste foram provocados principalmente pela velocidade dos ventos associados à frente de rajada e pela grande área atingida.
Fonte: Roberto Peixoto, g1 – 30/07/2026




