sexta-feira, abril 17, 2026
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É #FATO: Cientistas registram primeira infecção em humanos de ‘vírus marinho’ que pode causar cegueira

Estudo publicado na ‘Nature’ relata casos inéditos de contaminação em trabalhadores de fazendas aquáticos que manusearam camarões sem proteção adequada; vírus também afeta peixes. Ao Fato ou Fake, microbiologista aponta baixo risco de epidemia; entenda.

Circulam nas redes sociais publicações dizendo que um “vírus marinho” foi transmitido para humanos pela primeira vez e pode causar cegueira. É #FATO.

🟢 Como é o post?

  • Publicações que viralizaram no X a partir de 8 de abril somam mais de 4 milhões de visualizações e afirmam que, pela primeira vez, um vírus identificado em animais marinhos teria sido transmitido a humanos.
  • Veja dois exemplos de legenda (a primeira, em inglês; a segunte, em português): “Primeiro vírus marinho conhecido a infectar humanos: um vírus de camarões e peixes agora está associado a inflamação ocular e perda de visão em 70 pessoas”; e“Cientistas relataram o primeiro caso conhecido de um vírus marinho infectando humanos, marcando um novo tipo de spillover zoonótico da vida oceânica. O vírus, chamado Covert Mortality Nodavirus (CMNV), era anteriormente conhecido por infectar peixes e crustáceos, mas agora foi ligado a uma condição ocular humana”.
  • Na seção de comentários, usuários duvidaram da existência do vírus ou fizeram perguntas ao Grok (assistente de inteligência artificial do próprio X). Veja dois exemplos de mensagens: “@Grok, desde quando isso é real? O que é esse vírus?”; e “Esse vírus não existe. É culpa das vacinas”.

✅ Por que é #FATO?

Um estudo publicado em 26 de março na “Nature”, uma das revistas científicas mais prestigiosas do mundo, tem o seguinte título: “Uma doença ocular emergente em humanos está associada a uma infecção zoonótica por vírus aquático”. A pesquisa descreve os primeiros casos de infecção em humanos pelo vírus Covert Mortality Nodavirus (CMNV, na sigla em inglês), notificados na China.

Veja dois trechos do texto: “O CMVN pode infectar mais de 20 espécies aquáticas, incluindo equinodermos [estrelas-do-mar, ouriços-do-mar, pepinos-do-mar, bolachas-da-praia], crustáceos [camarão, lagosta, siri, caranguejo] e teleósteos [peixes com esqueleto ósseo]”; e “Confirmamos a infecção pelo CMNV em tecidos oculares de 70 pacientes com uveíte anterior viral hipertensiva [POH-VAU, na sigla em inglês], que trabalhavam no processamento ou consumiram a carne crua desses animais”. Nenhum dos 70 infecctados morreu nem ficou cego, mas cerca de um terço precisou de tratamento de longo-prazo, com medicamentos.

Ao Fato ou Fake, o professor Jansen de Araújo, microbiologista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo ( ICB-USP), explicou que os vírus CMNV se hospedam em invertebrados como crustáceos, camarões, mexilhões e ostras, que são cultivados em fazendas aquáticas.

“A maioria dos casos analisados pela pesquisa foram de pessoas que tinham seu trabalho diretamente ligado à maricultura, produção de pescados e manipulação direta dos animais. Muitos deles relataram que não havia proteção para manipulação, como luvas ou proteção ocular. Os autores demonstram que poderia haver vias de transmissão direta por essa manipulação, por lesões cutâneas ou fluidos aquáticos contaminados em contato direto com os olhos. Essa poderia ser a porta de entrada para um vírus estritamente de invertebrado encontrar receptores em células humanas e realizar sua replicação”.

O pesquisador ressalta, porém, que o estudo da “Nature” não classifica infecção pelo vírus marinho em humanos como um potencial risco epidemiológico:

“Alguns dos pacientes estudados tinham a doença ocular há 25 anos. Então, isso não caracteriza um surto de espalhamento epidêmico na região, nem pânico para a população. O consumo de pescados continua com baixíssimo risco e ainda permanece seguro”.

Araújo afirma que ainda não se sabe o que permitiu a transmissão bem-sucedida do vírus para um humano nesse caso, mas que a capacidade de mutação de vírus marinhos é bem documentada:

“Normalmente, os vírus têm uma coevolução com seu hospedeiro ‘predileto’. A plasticidade genômica é uma característica de muitos vírus de RNA de ambientes aquáticos, que têm taxas de mutação elevadas, permitindo que utilizem receptores celulares conservados em vertebrados, como o receptor celular ‘ACE2’ ou similares de superfície”.

Em sua análise, o pesquisador avalia que esses micro-organismos existem há muitos anos no planeta e que mudanças climáticas e ambientais podem favorecer transformações nesse cenário: “O ambiente marinho é um dos que mais sofre com as alterações climáticas globais”.

“Não sei se o ‘vírus do camarão’ [CMNV] pode ser um bom exemplo para isso. Mas, com certeza, peixes com estresse metabólico pelo calor têm sistemas imunes mais fracos, replicando cargas virais maiores. A migração de espécies tropicais para novos habitats tem ocorrido frequentemente encontrando espécies que não haviam contato anteriormente, podendo criar novas oportunidades e novas redes de transmissão. E por fim, a interação humana em busca de novos recursos ou em novas reigões aumenta o contato com reservatórios virais antes desconhecidos.”

Fonte: Redação g1 – 16/04/2026

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