Estudo publicado na revista científica “Nature Microbiology” relata a chamada cura funcional do paciente, quando há o controle do vírus e não é identificada mais nenhuma evidência de dano futuro ao organismo.
Um homem de 63 anos teve remissão do HIV após receber um transplante de medula óssea de seu irmão. Apesar de outros casos da chamada “cura funcional” a partir de transplante já terem sido registrados, esse é o primeiro em que a doação foi feita por um irmão do receptor.
➡️A cura funcional é aquela em que há o controle do vírus, sem mais nenhuma evidência de que ele possa fazer algum mal à saúde. Esse tipo de cura é relativamente frequente, acontecendo em cerca de 1% a 3% das pessoas. (entenda mais abaixo)
Segundo a pesquisa publicada nesta semana na revista científica “Nature Microbiology”, o doador, irmão do paciente, possuía a mutação genética rara denominada de CCR5Δ32. Pessoas com esse tipo de mutação têm resistência ao vírus do HIV.
A presença em dose dupla desse gene bloqueia a entrada do vírus no sistema imunológico. A utilização dessa mutação já foi descrita em parte dos outros poucos casos de remissão do HIV registrados até hoje.
O artigo publicado na “Nature” revelou que, após o transplante, as células do doador substituíram as células da medula óssea do homem HIV positivo, e seus genes passaram a ter duas cópias da mutação.
Além disso, a contagem de células T (células imunológicas afetadas pelo HIV) saudáveis aumentou significativamente no ano seguinte ao procedimento. Os níveis permaneceram normais mesmo após a interrupção da terapia antirretroviral, dois anos após o transplante.
🦠A terapia com medicamentos antirretrovirais contribui para que o HIV pare de se reproduzir no organismo, mas ela não elimina totalmente o vírus.
No estudo, os pesquisadores analisaram o sangue, tecidos intestinais e a medula óssea em busca de algum sinal do HIV após o transplante. O grupo não encontrou HIV detectável em locais onde normalmente o vírus permanece quando um paciente está em tratamento.
Apesar do resultado positivo do transplante, os pesquisadores ainda destacam que são necessários mais estudos para compreender a influência do doador no processo e aprimorar a escolha dos biomarcadores.
“Para o futuro, um passo crucial será comparar os casos existentes de cura do HIV para identificar a combinação mais eficaz de biomarcadores”, destacam na discussão do estudo.
Cura X remissão do HIV
Existem alguns critérios para considerarmos que uma pessoa foi curada do HIV, explica Ricardo Diaz, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Porém, ele diz que atualmente o termo “cura” não é o mais indicado. O mais correto seria referir-se aos casos como “remissão sustentada do HIV sem antirretrovirais”.
“Isso quer dizer que você tira o tratamento, e o vírus não volta. Em algumas pessoas, a gente tem evidências muito fortes de que realmente o vírus não existe mais. Nenhum pedacinho do vírus, nem qualquer sinal de que ele esteja escondido no corpo”, afirma o infectologista.
Para isso, Diaz explica que é preciso esperarmos ao menos dois anos. Esse é um critério importante, segundo ele, para que seja verificado efetivamente se o HIV não voltou sem os antirretrovirais e que existe essa tendência progressiva de diminuição dos anticorpos detectáveis para o vírus.
O infectologista diz que, embora fundamental, suspender o tratamento com antirretrovirais é um procedimento relativamente arriscado, pois promove a interrupção do tratamento que impede a multiplicação do vírus no organismo.
“A gente ainda tem instrumentos da ‘Idade da Pedra’, da ‘Idade Média’ para monitorar essa remissão. Idealmente, a gente teria uma espécie de raio-X do corpo da pessoa para comprovar que não tem mais vírus aqui, ali etc.”, lamenta.
Por que o HIV é tão difícil de curar?
Na vasta maioria das pessoas que não consegue controlar naturalmente o HIV, a intenção da terapia antirretroviral é “acordar” o vírus que está latente – “dormindo” dentro das células – e eliminá-lo. É o mesmo “chocar e matar”, só que com a ajuda de medicamentos.
É essa latência que torna tão difícil eliminar o HIV.
“Tem uma quantidade de células – que é de 0,01% até 0,0001% – que tem vírus latente. O vírus latente vai acordando ao longo do tempo. Se você tratar as pessoas com coquetel, o vírus vai saindo da latência e você vai diminuindo essa porcentagem de vírus latente. Igual a um balãozinho, que vai murchando”, explica Ricardo Diaz.
“Aí você cura a pessoa – só que demora. 80 anos. Para curar uma pessoa, você teria que tratar de forma efetiva por 80 anos. Por isso que não dá para interromper o tratamento – porque, na hora que você interrompe, aparece um vírus latente”, esclarece.
Fonte: Júlia Carvalho, g1 – 14/04/2026



