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Ibovespa dispara e dólar cai após 1º turno: por que a vantagem de Flávio sobre Lula animou o mercado

Resultado contrariou as pesquisas e levou investidores a rever as apostas para o segundo turno; expectativa de mudança na política fiscal derrubou os juros futuros e impulsionou ativos brasileiros.

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais levou o mercado financeiro a rever rapidamente suas apostas sobre a disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Com o candidato do PL à frente do petista, por 47,03% a 45,16% dos votos válidos, investidores passaram a considerar mais provável uma troca de governo. Também aumentaram as apostas em uma possível mudança na forma como o governo administra suas receitas e despesas. A diferença entre os candidatos foi de 1,87 ponto percentual.

A reação foi imediata: o Ibovespa disparou e superou pela primeira vez os 200 mil pontos. O dólar caiu mais de 4% e voltou ao patamar de R$ 5. As taxas de juros projetadas pelo mercado para os próximos anos também recuaram com força.

Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o movimento reflete, principalmente, uma mudança nas expectativas para o segundo turno.

O mercado passou a considerar mais provável a eleição de um governo visto como favorável ao equilíbrio das contas públicas. Essa expectativa reduziu as taxas de juros projetadas para os próximos anos e aumentou a procura por investimentos no Brasil.

A reação, porém, está baseada em expectativas. A continuidade do movimento dependerá do resultado do segundo turno e da apresentação e execução de medidas concretas para equilibrar as contas públicas.

“O ponto central é que o otimismo de curto prazo precisa se converter em entrega concreta”, afirma Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.

Resultado contrariou pesquisas

A vantagem de Flávio contrariou a maioria das pesquisas divulgadas antes da votação. Os levantamentos apontavam uma disputa mais equilibrada ou colocavam Lula numericamente à frente.

O resultado levou os investidores a rever as chances atribuídas a cada candidato. A diferença apertada e as três semanas restantes de campanha, porém, ainda deixam o cenário em aberto.

Debates, novas pesquisas e declarações de apoio podem mudar novamente essas expectativas antes da votação do segundo turno.

  • ➡️ O mercado também acompanha a composição do Congresso e dos governos estaduais. Para os analistas, o avanço de partidos de centro e de direita pode abrir espaço para mudanças na economia. A aprovação de qualquer medida, porém, continuará dependendo de negociação e apoio político.

Na avaliação de Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, o resultado da eleição presidencial e a nova composição política mudaram as expectativas sobre a condução da economia.

“Este cenário eleitoral altera profundamente as expectativas do mercado”, afirma. Segundo o economista, investidores passaram a antecipar uma trajetória mais controlada para a dívida pública, o que contribuiu para a queda dos juros futuros.

Bolsa sobe e juros projetados pelo mercado despencam

A reação mais intensa ocorreu na bolsa e nas taxas de juros projetadas pelo mercado. O Ibovespa superou pela primeira vez os 200 mil pontos e bateu um novo recorde.

  • 📈 Entre as principais ações negociadas na bolsa, os bancos registravam altas superiores a 10%. Banco do Brasil subia 11%; B3, 22,63%; Bradesco, 13,57%; BTG Pactual, 22,52%; e Itaú, 10,37%.

A alta das ações está diretamente relacionada à queda das taxas de juros projetadas pelo mercado.

Quando as taxas previstas para os próximos anos caem, os investimentos de renda fixa se tornam menos atraentes em comparação com as ações.

Também diminui a taxa usada para calcular quanto valem hoje os lucros que as empresas poderão obter no futuro. Isso tende a aumentar o valor atribuído às ações.

Painel eletrônico mostra as recentes flutuações de ações na B3 em 28 de outubro de 2021 — Foto: REUTERS/Amanda Perobelli
Painel eletrônico mostra as recentes flutuações de ações na B3 em 28 de outubro de 2021 — Foto: REUTERS/Amanda Perobelli

Um exemplo foi a taxa de juros projetada para janeiro de 2031, que caiu de cerca de 14% para 12,85% ao ano, segundo Perri.

“Esta queda nos juros gera um fator direto de valorização para a própria bolsa”, afirma o economista.

Segundo ele, o movimento ocorre porque os investimentos de renda fixa ficam menos atraentes e porque diminui a taxa usada para calcular, no presente, o valor dos resultados futuros das empresas.

  • 💰 Valuation é a estimativa do valor de uma empresa com base, entre outros fatores, nos resultados que ela poderá obter no futuro.

Os bancos ficaram entre os principais beneficiados. Além de tornar suas ações mais atraentes, a expectativa de juros menores pode aliviar as dívidas de empresas e consumidores e reduzir as preocupações com atrasos nos pagamentos.

“Temos o desempenho positivo dos bancos, beneficiados por juros futuros menores e por uma inadimplência corporativa e de pessoas físicas menos ruidosa”, afirma Perri.

Segundo ele, esse cenário pode favorecer uma redução gradual das dívidas.

Por que o dólar caiu para R$ 5?

O dólar também reagiu ao novo cenário. A moeda americana caiu 4,12%, para R$ 5,0010, e chegou a R$ 4,9530 no menor valor registrado durante o dia.

🔎 A queda pode ser explicada por dois movimentos relacionados:

  • percepção de risco: ao esperar uma gestão mais previsível das contas públicas, os investidores passam a exigir uma remuneração menor para aplicar recursos no Brasil;
  • entrada de recursos: a maior procura por ações e outros investimentos brasileiros pode atrair dinheiro estrangeiro para o país. Isso aumenta a oferta de dólares e ajuda a reduzir a cotação da moeda.

Marcelo Bassani, economista e fundador da Boa Brasil Capital, explica que a expectativa de maior equilíbrio das contas públicas aumenta o interesse pelos investimentos brasileiros e pode estimular a entrada de recursos no país.

“Com o cenário e a expectativa de que uma eventual troca de liderança na Presidência do país possa fazer com que se tenha um fiscal mais ajustado, isso acaba incentivando investidores, no geral, a quererem aportar no país”, afirma.

A entrada desses recursos aumenta a oferta de dólares no Brasil e ajuda a reduzir a cotação da moeda.

Otimismo com as contas públicas ainda depende de medidas concretas

A reação desta segunda-feira não significa que o mercado já saiba qual será a política econômica de um eventual governo de Flávio Bolsonaro.

A equipe do candidato afirma que pretende cortar gastos equivalentes a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), rever as regras que limitam as despesas públicas e reduzir a estrutura do governo.

Até agora, porém, a equipe não apresentou cálculos detalhados que mostrem como chegaria ao ajuste, estimado pela campanha em cerca de R$ 190 bilhões.

Parte dessas iniciativas pode gerar receitas excepcionais ou antecipar recursos que seriam recebidos no futuro. Por isso, uma melhora permanente das contas públicas ainda dependerá dos detalhes das medidas, de sua aprovação pelo Congresso e de sua execução.

Para Gustavo Sung, a continuidade da valorização dos investimentos brasileiros dependerá de as propostas econômicas se tornarem prioridade antes mesmo do início de um eventual governo.

“Para que isso se sustente, a pauta econômica precisa ser prioridade já na lua de mel e na transição, com o ajuste das contas públicas e as demais diretrizes econômicas pautados, votados e colocados em prática”, afirma. “Sem isso, a expectativa se frustra e, em seis a doze meses, os ruídos podem voltar.”

O que pode acontecer até o segundo turno?

A forte alta desta segunda-feira não significa que o mercado considere definido o resultado da eleição.

Até 25 de outubro, dia marcado para o segundo turno, debates, ações de campanha, apoios políticos e novas pesquisas podem mudar as chances atribuídas a cada candidato e, consequentemente, os preços dos investimentos.

Uma ampliação da vantagem de Flávio Bolsonaro nas pesquisas pode reforçar o movimento observado após o primeiro turno. Uma recuperação de Lula, por outro lado, pode levar a uma reversão de parte das altas, especialmente após a forte valorização desta segunda-feira.

Bassani recomenda cautela diante da intensidade da reação, pois os preços dos investimentos ainda estão se ajustando ao novo cenário eleitoral.

“Muita volatilidade ainda é esperada, e um superotimismo do mercado como um todo se reflete até o presente momento”, afirma.

Fonte: Janize Colaço, g1 — São Paulo – 06/10/2026

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