quarta-feira, maio 13, 2026
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Os Legos do Irã: quem está por trás dos vídeos de IA que levam propaganda de guerra ao TikTok?

A organização Explosive Media é uma das principais responsáveis pelos vídeos; especialistas explicam uso do formato como propaganda política e banalização da violência.

Bombas feitas de peças coloridas, líderes mundiais transformados em bonecos e trilhas sonoras para retratar ataques militares. Desde o início da guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos, vídeos inspirados na estética da marca Lego passaram a circular em massa nas redes sociais.

Do debate político ao palco do festival Coachella, essas produções passaram a integrar uma estratégia cada vez mais sofisticada de propaganda de guerra.

  • 🎯Publicadas nas redes sociais, as animações mostram drones, explosões e confrontos militares em estilo de desenho. Em muitos dos vídeos, autoridades americanas como Donald Trump, soldados dos EUA e líderes aparecem como responsáveis por guerras e destruição, enquanto o Irã e grupos aliados são retratados como resistência.
  • Especialistas ouvidos pelo g1 classificam as produções como uma nova forma de propaganda pensada para a internet, que usa linguagem simples, humor e uma estética mais leve para ampliar o alcance e ser facilmente compartilhada. Ao mesmo tempo, para quem consome, serve para simplificar temas complexos e pode acabar suavizando ou banalizando a violência retratada.

Explosive Media

Uma das principais organizações por trás dos vídeos de Lego é a Explosive Media.

Em entrevista à BBC, um representante da organização — que se identifica como “Sr. Explosivo” — explicou que a escolha da estética inspirada em Lego foi estratégica.

“Lego é uma linguagem universal”, afirmou.

Segundo ele, o formato também ajuda a suavizar a violência da guerra e evitar rejeição do público.

Maurício Ramos, cientista político e professor da Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política, da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo), concorda com essa visão: “É uma comunicação voltada para o ocidente e é o único brinquedo que consegue atravessar todas as faixas etárias”, explica.

Ainda na entrevista da BBC, o grupo admitiu, após negar vínculos anteriormente, que o governo do Irã é um “cliente”.

De acordo com o representante, a equipe responsável pelos vídeos é formada por cerca de dez pessoas, entre operadores de inteligência artificial, pesquisadores e animadores. Ele afirmou ainda que o projeto se sustenta com doações do público, além de contratos com diferentes clientes.

Muitas vezes, as próprias empresas responsáveis pelas redes acabam excluindo as contas do grupo. Em março, o Youtube suspendeu o canal da organização por violações das políticas da plataforma sobre spam, práticas enganosas e golpes.

Criado em 2025, o grupo que publica as animações produzidas com inteligência artificial acumula milhões de visualizações. Na época, eles também faziam vídeos curtos voltados a comentários políticos.

Propaganda de guerra

Para Ramos, não há dúvidas que as animações são propaganda de guerra.

“Talvez seja a primeira vez que a gente vê isso estruturado como uma política de comunicação pensada especificamente para as redes sociais”, explica.

“A grande diferença em relação à propaganda tradicional é que agora o foco não está no medo, mas no engajamento. E o engajamento vem de conteúdos leves, rápidos e fáceis de consumir”, explica Ramos.

Ramos afirma ainda que o objetivo é o compartilhamento. “Quando as pessoas compartilham, concordando ou não, elas ajudam a multiplicar o discurso”, continua.

Segundo o especialista, os clipes são vistos tantas vezes que passam a parecer comum, a fazer parte do senso coletivo. E o Irã aproveita essa viralização, já que perfis oficiais do governo compartilham os vídeos nas redes sociais.

Abacatudo vai para a guerra?

A psicanalista Fabíola Barbosa analisa que essa busca pela viralização também ajuda a banalizar o tema pesado da guerra.

“Um dos aspectos mais preocupantes é a forma como temas problemáticos são diluídos em uma estética aparentemente inocente. [Isso] mascara conteúdos que reproduzem violência consumidos como entretenimento”, afirma.

“A estética serve para suavizar e normalizar imagens que seriam chocantes em filmagens reais e seriam bloqueadas pelas plataformas. Feitas com Lego, parecem ‘inofensivas e engraçadas””, afirma.

O potencial de viralizar e entrar na discussão pública usando vídeos de IA, segundo a psicanalista, se assemelha aos vídeos das “novelas de frutas” que ganharam repercussão nas redes nos últimos meses.

“[Os vídeos] seguem a esteira do uso indiscriminado de inteligência artificial para fazer roteiros, histórias, sejam LEGO – ou frutas e animais que circulam em outras narrativas, não há autoria”, afirma.

“A novidade de vídeos, curtos, protagonizados por figuras que não são humanas, deixa sempre maior espaço para o horror ser apresentado de forma mais lúdica”, continua.

O mesmo ocorre com os vídeos de frutas, que mostram cenas carregadas de palavrões e discursos preconceituosos.

Vídeos transformam figuras políticas em Lego — Foto: Reprodução
Vídeos transformam figuras políticas em Lego — Foto: Reprodução

Dos memes ao Coachella

Se o objetivo era viralizar e trazer a guerra para as discussões do dia a dia, os vídeos foram bem-sucedidos.

A fama é tanta que o assunto chegou aos palcos de um dos festivais de música mais famosos do mundo. O vocalista da banda norte-americana The Strokes, Julian Casablancas, citou a propaganda na segunda apresentação do grupo no Coachella, em 18 de abril.

“Fiquei tentado a sair esta noite com um laptop e mostrar para vocês alguns daqueles vídeos de Lego do Irã. Vocês viram? Muito bons! Mais bem feitos do que o noticiário local de vocês. Mas derrubaram. O YouTube ou o governo, sei lá. Tiraram do ar. Terra da liberdade, estou certo?”, disse o cantor.

Fonte: Aline Freitas, g1 — São Paulo – 10/05/2026

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