Anuário da Segurança Pública mostra queda histórica dos homicídios, mas alta nos golpes digitais, feminicídios e crimes contra crianças.
A 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) revela um país em um momento de profunda transformação nas dinâmicas da violência. O Brasil registrou, em 2025, a menor taxa de mortes violentas intencionais dos últimos 13 anos e alcançou com antecedência a meta nacional de redução de homicídios prevista para 2027. Apesar do avanço, o país enfrenta uma nova configuração da violência.
Os dados apontam uma mudança significativa no perfil da criminalidade. Enquanto os homicídios seguem em queda, delitos patrimoniais praticados por meio da internet e da tecnologia se consolidam como uma das principais preocupações dos brasileiros.
Segundo o levantamento, o país contabilizou 40.775 vítimas de Mortes Violentas Intencionais (MVI) em 2025, índice que corresponde a uma taxa de 19,1 mortes por 100 mil habitantes.
O resultado representa uma redução de 8,2% em relação a 2024 e uma queda acumulada de 31% desde o início da série histórica considerada pelo estudo.
Com esse desempenho, o Brasil antecipou em dois anos a meta estabelecida pela Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, que previa atingir esse patamar apenas em 2027.
Sensação de insegurança continua elevada
Apesar da redução histórica dos homicídios, o sentimento de insegurança permanece elevado entre a população.
De acordo com o Anuário, o medo deixou de estar concentrado apenas na violência letal e passou a ser impulsionado principalmente pelos crimes patrimoniais e fraudes eletrônicas.
A pesquisa mostra que:
- 78,8% dos brasileiros têm medo de ter o celular roubado;
- 83,2% temem sofrer golpes financeiros pela internet.
Os dados ajudam a explicar por que a segurança pública voltou a aparecer entre as principais preocupações da população, mesmo diante da queda dos índices de homicídio.
Estelionatos crescem
O levantamento aponta que o estelionato se consolidou como o principal crime patrimonial do país. Em 2025, foram registrados 2.261.055 casos, número que representa um crescimento de 429,8% em comparação com 2018.
Na prática, o Brasil contabilizou uma média de 258 golpes por hora ao longo do ano. A taxa nacional chegou a 1.059,4 ocorrências para cada 100 mil habitantes, índice cerca de 20% superior ao registrado nos Estados Unidos.
Segundo o Anuário, a popularização do Pix, dos serviços digitais e o roubo de celulares passaram a integrar uma mesma cadeia criminosa, na qual aparelhos furtados ou roubados são utilizados para acessar aplicativos bancários e realizar transferências financeiras.
O estudo também destaca que grande parte desses crimes permanece sem responsabilização criminal, contribuindo para um cenário de baixa punição aos autores.
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Feminicídios seguem em alta
Enquanto os homicídios gerais apresentaram queda, a violência letal contra mulheres seguiu trajetória oposta.
Em 2025, o país registrou 1.571 vítimas de feminicídio, um aumento de 4% em relação ao ano anterior.
Os indicadores relacionados à violência doméstica também cresceram:
- 4.189 tentativas de feminicídio, alta de 5,9%;
- 286.270 casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica, aumento de 2,6%, equivalente a uma agressão física contra mulher a cada dois minutos;
- 132.025 registros de descumprimento de medidas protetivas, crescimento de 16,7%.
O levantamento ainda revela que uma em cada nove mulheres assassinadas por feminicídio possuía medida protetiva de urgência em vigor, indicando dificuldades na efetividade das decisões judiciais destinadas à proteção das vítimas.
Crimes contra crianças migram para o ambiente digital
O Anuário também identifica mudanças importantes na violência contra crianças e adolescentes.
Embora as mortes violentas envolvendo esse público tenham caído 10,8% e os casos de estupro de vulnerável tenham registrado redução de 5,5%, os crimes praticados pela internet cresceram de forma expressiva.
Os registros relacionados à produção, posse e compartilhamento de material de abuso sexual infantil aumentaram 25,3% apenas em 2025 e acumulam alta de 176,7% desde 2021.
Pela primeira vez, o levantamento analisou o perfil dos autores desses delitos e identificou que 34,2% são adolescentes, indicando um aumento da participação de jovens nesse tipo de crime praticado em ambientes digitais.
Outro destaque foi o crescimento dos registros de bullying e cyberbullying, que avançaram 67,3% após a criminalização dessas condutas pela legislação brasileira.
Violência muda de perfil
Para os pesquisadores, os dados indicam que o Brasil vive um período de transição na segurança pública.
A redução consistente das mortes violentas demonstra avanços nas políticas de enfrentamento aos homicídios, mas o crescimento dos crimes digitais, da violência contra mulheres e da exploração sexual infantil pela internet evidencia que os desafios da segurança pública passaram a exigir respostas diferentes das adotadas nas últimas décadas.
O cenário aponta que, embora o risco de morte violenta tenha diminuído, novas modalidades criminosas ganharam espaço e passaram a impactar diretamente a percepção de segurança da população brasileira.
Fonte: Lucas Quirino – 23/07/2026




