Defesa disse que vai recorrer da decisão. Prejuízo financeiro total causado às vítimas foi estimado em cerca de R$ 130,4 mil.
A médica Carolina Fernandes Biscaia, de Pato Branco, no sudoeste do Paraná, foi condenada a 11 anos e 8 meses de prisão em regime fechado por emitir laudos falsos de câncer de pele e realizar procedimentos desnecessários em pacientes. Ela poderá recorrer em liberdade.
Carolina começou a ser investigada em março de 2024, quando pacientes suspeitaram de procedimentos cirúrgicos solicitados por ela. Leia mais a seguir.
A médica foi condenada pelo crime de exercício ilegal de atividade profissional, – uma vez que se apresentava como dermatologista, mas não tinha a especialização – 21 crimes de lesão corporal e 32 crimes de estelionato.
Ao menos 38 pessoas que se apresentaram como vítimas foram ouvidas – em alguns dos casos, a Justiça entendeu que não havia provas suficientes para a condenação. Segundo o Ministério Público, o prejuízo financeiro total causado às vítimas foi estimado em cerca de R$ 130,4 mil.
A defesa da médica afirmou que a decisão de primeiro grau reconheceu parcialmente os pedidos e disse que irá recorrer da decisão.
Situação regular no CRM
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/p/f/Uj6zdXSGuTk3DzM8TBGg/whatsapp-image-2026-09-10-at-15.37.57.jpeg)
Em consulta no site oficial do Conselho Federal de Medicina, o registro da médica aparece em situação “regular”.
O g1 questionou ao Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) se a médica é alvo de algum processo administrativo que apura a conduta dela ou se está, de alguma forma, impedida de exercer a profissão.
Em nota, o órgão não respondeu às perguntas e afirmou que “sindicâncias e os processos ético-profissionais tramitam em sigilo processual”.
“Caso seja identificada alguma irregularidade e comprovada a violação da ética profissional, as sanções podem variar de advertência à cassação do exercício profissional”, afirmou o CRM-PR.
Em março de 2024, o CRM-PR puniu a médica com a chamada “censura pública” por anunciar ter especialidades que não possui. Em maio daquele ano, uma Interdição Cautelar Total de 180 dias foi determinada pelo CRM-PR e aprovada pelo Conselho Federal de Medicina, e impedia a médica de exercer a profissão.
Em consulta ao site do conselho, não são encontradas especialidades atribuídas à Biscaia. Nas redes sociais, a médica afirmava ser dermatologista.
‘Forte pressão psicológica’
As investigações conduzidas pela Polícia Civil apontaram que a médica agia sozinha e fazia uma “forte pressão psicológica” para que os procedimentos fossem feitos dentro do consultório, logo após ela dar os falsos diagnósticos.
As investigações identificaram que a médica examinava pintas e manchas dos pacientes e afirmava que algumas poderiam ser cancerígenas. Ela, então, fazia retirada de material e encaminhava para laboratório.
Na reconsulta, ela apresentava ao paciente um laudo falso com diagnóstico de câncer de pele. Segundo as investigações, a perícia em exames que estavam no consultório, bem como entregues pela médica a pacientes, mostrou que a falsificação era feita com máquina de xerox, no próprio consultório.
Além disso, a investigação apurou que documentos falsos eram colocados sobre os verdadeiros e, com a ajuda do equipamento, eram criadas novas versões de laudos.
Médica comemorou retirada de falso melanoma em áudio
Um áudio que compôs as investigações mostra o momento em que a médica comemorou a retirada de um falso melanoma – tipo de câncer de pele mais agressivo – de uma paciente.
A conversa foi gravada pela vítima em janeiro de 2024. Ouça o áudio:
“Não sei se você é católica ou não, mas passa na igreja, agradece a Deus. Tem coisas assim que a gente tem que agradecer, sabe? Tem que agradecer, porque, como eu disse, a chance de pegar assim (melanoma), nesse estágio em que a gente só amplia a margem e está curada, é uma dádiva […]. Não precisa se preocupar com metástase”, afirmou a médica.
A vítima contou que descobriu o falso diagnóstico após encontrar inconsistências no laudo apresentado por Carolina, comparando com o documento retirado por ela diretamente no laboratório.
Depois da descoberta, a gravação passou a ser prova para investigação.
A pedido da médica, ela passou pelo procedimento chamado de ampliação de margens. No caso dela, a falsa doença foi identificada na perna esquerda. A vítima gastou mais de R$ 5 mil e leva uma cicatriz desnecessária na perna.
Fonte: Michelli Arenza, Mariah Colombo, g1 PR e RPC — Foz do Iguaçu – 10/09/2026




