domingo, junho 7, 2026
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Crise política e ‘impeachment express’ levaram Peru a ter 9 presidentes em 10 anos; sistema mudou neste ano

País vai às urnas escolher entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez. Desde a gestão de Pedro Pablo Kuczynski, entre 2016 e 2018, Lima atravessa instabilidade política.

As urnas foram abertas no Peru neste domingo (7) no 2º turno eleitoral, em que os eleitores elegerão entre a direitista Keiko Fujimori e esquerdista Roberto Sánchez. Quem vencer o pleito se tornará, no dia 28 de julho, o nono presidente em dez anos.

👉O país vive uma década de instabilidade política graças, em parte, a um sistema unicameral que facilita processos de impeachments e destituições “express”. O pleito deste ano, no entanto, resgatou o modelo bicameral, com Câmara e Senado, similar ao sistema brasileiro (leia mais abaixo).

O nome eleito deste domingo sucederá o presidente interino José María Balcázar Zelada, que não foi eleito, mas escolhido pelo Congresso para cumprir um mandato-tampão entre a destituição de José Jerí e as eleições.

destituição de Jerí não foi um episódio isolado: desde Ollanta Humala, que deixou o poder em 28 de julho de 2016, ninguém conseguiu governar por um mandato completo.

Veja quanto tempo duraram os últimos presidentes do Peru:

  • Pedro Pablo Kuczynski, de 28 de julho de 2016 a 23 de março de 2018 (1 ano e 238 dias)
  • Martín Vizcarra, de 23 de março de 2018 a 9 de novembro de 2020 (2 anos e 231 dias)
  • Manuel Merino, de 10 a 15 de novembro de 2020 (5 dias)
  • Francisco Sagasti, de 17 de novembro de 2020 a 28 de julho de 2021 (253 dias)
  • Pedro Castillo, de 28 de julho de 2021 a 7 de dezembro de 2022 (1 ano e 132 dias)
  • Dina Boluarte, de 7 de dezembro de 2022 a 10 de outubro de 2025 (2 anos e 307 dias)
  • José Jerí, de 10 de outubro de 2025 a 17 de fevereiro de 2026 (130 dias)
  • José María Balcázar, de 18 de fevereiro até 28 de julho de 2026 (161 dias, considerando que termine seu mandato)
Eleitores consultam lista na porta de seção eleitoral em Lima, no Peru, durante o segundo turno das eleições presidenciais no país, em 7 de junho de 2026. — Foto: Rodrigo Abd/ Reuters
Eleitores consultam lista na porta de seção eleitoral em Lima, no Peru, durante o segundo turno das eleições presidenciais no país, em 7 de junho de 2026. — Foto: Rodrigo Abd/ Reuters

Kuczynski renunciou ao cargo após a divulgação de vídeos que mostravam uma tentativa de compra de votos de deputados para que ele sobrevivesse a uma votação de impeachment. Vizcarra, seu sucessor, caiu de fato por impeachment.

Merino entrou em seu lugar, mas figuras políticas questionaram sua legitimidade no cargo, o que precipitou sua renúncia em apenas 5 dias. Sagasti foi promovido como presidente do Congresso, por sucessão constitucional, levando o mandato-tampão sob intensas crises sociais e políticas até o final.

Pedro Castillo foi eleito em 2021. No ano seguinte, tentou dar um golpe e acabou preso e destituído do cargo. No final de 2025, Castillo foi condenado a 11 anos de prisão.

Após a queda de Castillo, o comando do país passou para a vice-presidente Dina Boluarte. Ela permaneceu no cargo até outubro do ano passado, quando sofreu impeachment por “incapacidade moral”.

Os processos de impeachment e destituição têm uma tramitação “express” justamente porque não existiam duas câmaras no Legislativo para debater e colocar entrave a tais decisões.

Sistema unicameral

Prédio do Congresso peruano em Lima. — Foto: Cris Bouroncle / AFP
Prédio do Congresso peruano em Lima. — Foto: Cris Bouroncle / AFP

As eleições deste ano no Peru também restabeleceram o sistema legislativo bicameral pela primeira vez em décadas. Desde a realização do primeiro turno do pleito, em abril, o país andito voltou a ter uma Câmara dos Deputados, de 130 cadeiras, e um Senado, 60 cadeiras.

Sob o novo sistema, a destituição de um presidente exigirá aprovação em ambas as Casas, cabendo ao Senado a instância final para determinar o futuro do presidente.

Diferentemente do Brasil, o Peru não tem o chamado sistema bicameral — em que o Poder Legislativo é exercido por Senado e Câmara dos Deputados. No Peru, o Congresso é composto por apenas uma delas, em que atuam 130 parlamentares.

Mas nem sempre foi assim. Até 1992, o país tinha Câmara de Deputados e Senado. Naquele ano, o então presidente Alberto Fujimori (1938 -2024) deu um “autogolpe”: entre outras medidas, fechou o Congresso, enviou militares às ruas e promulgou uma nova Constituição no ano seguinte.

O ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori, em foto de arquivo. — Foto: Reuters/Mariana Bazo
O ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori, em foto de arquivo. — Foto: Reuters/Mariana Bazo

No texto, que foi aprovado por um referendo, ficou determinado que o país não teria mais um Senado, e a regra vigora até hoje.

O governo de Vizcarra tentou recriar o sistema bicameral, enviando um projeto ao Congresso que previa a recriação do Senado. Quando o texto chegou ao Parlamento, foi modificado pelos congressistas. As alterações feitas “desvirtuavam o espírito da reforma, na opinião de Vizcarra, e por isso não passou”, explica Aragón.

Outras mudanças, entretanto, foram emplacadas: em dezembro de 2018, o país aprovou, por referendo, uma reforma que acabava com a reeleição para os parlamentares.

Fonte: Redação g1 – 07/06/2026

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