quarta-feira, julho 22, 2026
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Áustria transforma casa de Hitler em delegacia por conta de ‘peregrinação neonazista’

Delegacia em Braunau am Inn foi inaugurada nesta quarta (22). Governo local revitalizou edifício para retirar qualquer associação com o ditador nazista. Projeto foi alvo de críticas.

A cidade de Braunau am Inn, na Áustria, transformou a casa onde Hitler nasceu em uma delegacia de polícia, que iniciou suas operações nesta quarta-feira (22). Com a ação, o governo local buscou impedir que o local sirva como um ponto de encontro e “peregrinação” para neonazistas.

A inauguração da nova delegacia ocorreu após anos de debates sobre o que fazer com a grande e tradicional casa geminada na cidade —que faz fronteira com a Alemanha. O edifício abrigava uma instituição de caridade para pessoas com deficiência até 2017, quando o governo austríaco o desapropriou e anunciou, em 2019, que o local seria reformado e ganharia um novo propósito.

“O objetivo foi evitar qualquer associação com Adolf Hitler, para retirar esse caráter mítico [do local]”, disse a jornalistas Stephan Mlczoch, chefe do departamento de história do Ministério do Interior da Áustria, durante uma visita ao prédio.

Mesmo antes da conversão, o único sinal que dava uma importância histórica ao edifício era uma pedra na calçada, proveniente do campo de concentração de Mauthausen, com a inscrição “Fascismo nunca mais”, porém sem mencionar Hitler. A pedra permanece no local. A única sinalização que foi acrescentada à fachada diz “Polizei” (“Polícia”, em alemão).

A iniciativa, no entanto, enfrenta oposição e contestação por parte de instituições e moradores da cidade.

“O mundo não vai esquecer onde nasceu o maior assassino em massa da história. A Wikipédia não vai mudar isso”, disse Robert Eiter, que integra um comitê austríaco de sobreviventes do Holocausto e a Rede Contra o Racismo e o Extremismo de Direita. Eiter disse também não acreditar que haverá uma redução no número de neonazistas que fazem “peregrinação a Braunau”. Leia mais abaixo.

Culto à personalidade

Esse caráter simbólico foi incentivado pelo culto à personalidade de Hitler promovido pelos nazistas, sob cujo regime a chamada “casa de nascimento do Führer” foi transformada em um museu de arte.

Hitler viveu no local apenas por algumas semanas em 1889, antes de sua família se mudar, segundo Mlczoch.

“A polícia atual, nossa polícia federal austríaca, é o exato oposto do simbolismo ligado a este local. Nossa polícia representa a democracia e o Estado de Direito”, afirmou o ministro do Interior, Gerhard Karner, na cerimônia de inauguração.

Policiais em frente a nova delegacia, feita em edifício onde Adolf Hitler nasceu, durante cerimônia de inauguração em Braunau am Inn, na Áustria, 22 em julho de 2026. — Foto: REUTERS/Gintare Karpaviciute
Policiais em frente a nova delegacia, feita em edifício onde Adolf Hitler nasceu, durante cerimônia de inauguração em Braunau am Inn, na Áustria, 22 em julho de 2026. — Foto: REUTERS/Gintare Karpaviciute

Transeuntes costumam parar para tirar fotos, mas geralmente sem deixar explícito suas opiniões sobre Hitler. Autoridades locais afirmaram que hoje há apenas “incidentes isolados” envolvendo visitantes, menos do que antes.

Sem dar mais detalhes, as autoridades destacaram que a saudação nazista e outros símbolos do nazismo são proibidos na Áustria.

Questionado sobre a reação da população ao projeto de revitalização do edifício, o prefeito Johannes Waidbacher disse à agência de notícias Reuters acreditar que “no geral, os moradores de Braunau aceitaram e conseguem conviver com isso”.

Waidbacher integrou uma comissão que recomendou que o prédio tivesse uso assistencial ou administrativo. No fim, instalar ali uma entidade beneficente o tornaria acessível demais ao público, afirmou.

“Acho que não é uma má abordagem, mas se vai funcionar como todos esperamos, teremos que esperar para ver”, disse.

‘Nunca mais’ ou ‘vamos esquecer’?

O Comitê de Mauthausen, principal grupo de sobreviventes do Holocausto na Áustria, argumenta que a instalação de uma delegacia no local é inadequada e que deveria haver mais esforço para destacar os crimes de Hitler.

“Todo ano, no memorial do campo de concentração de Mauthausen, há uma cerimônia para dizer: nunca mais. E em Braunau estão dizendo: vamos esquecer o mais rápido possível”, afirmou Robert Eiter, membro do Comitê de Mauthausen.

Durante décadas, a Áustria sustentou que foi a primeira vítima do nazismo, ao ser anexada pela Alemanha de Hitler em 1938. Atualmente, o país reconhece que austríacos também foram disseminadores, mas raramente aprofunda essa discussão.

Alguns moradores locais questionaram a conversão. “Eu teria preferido que fizessem outra coisa, mas é o que é”, disse Irene, de 74 anos, acrescentando que gostaria que a instituição de caridade tivesse permanecido no local.

A maioria, porém, demonstrou apoio. “É ótimo, uma boa ideia”, afirmou o corretor de imóveis Thomas Spreitz. “De vez em quando havia grupos (neonazistas) ali, e agora isso é coisa do passado.”

Fonte: Redação g1 – 22/07/2026

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