Especialistas falam sobre as hostilidades dirigidas às mulheres e as possibilidades de responsabilização dos suspeitos após a investigação da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Presidente Prudente (SP).
O dicionário explica a palavra “misoginia” como antipatia ou aversão mórbida às mulheres. Mas, na vida real, esse conceito é muito mais do que um verbete e alimenta a desigualdade, a violência e os discursos de ódio.
Em Presidente Prudente (SP), alunas de uma universidade privada foram expostas e avaliadas em um “ranking” sexual, compartilhado em um grupo fechado de um aplicativo de mensagens. O conteúdo foi vazado e expôs mensagens de teor sexual e depreciativo, gerando uma investigação da Polícia Civil, que havia recebido 10 denúncias de vítimas até esta terça-feira (25).
O caso provocou protestos com faixas e cartazes em frente à universidade, localizada às margens da Rodovia Raposo Tavares (SP-270). O coletivo “Frente pela Vida das Mulheres” emitiu uma nota de repúdio ao episódio, classificado como “um ato de misoginia organizada”.
A psicóloga e professora Viviane Melo de Mendonça, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero, Diferenças e Sexualidades (NEGDS) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba, concorda com a definição, esclarecendo que a palavra “organizada” não está sendo utilizada no sentido jurídico.
“O termo descreve uma prática coletiva, planejada e sistematizada. Não foi apenas um comentário individual, isolado. Houve apropriação de fotografias das estudantes, construção de critérios para classificá-las, produção de um ranking e circulação em um grupo específico. Criou-se coletivamente um instrumento para transformar mulheres em corpos avaliáveis e sexualmente disponíveis ao julgamento masculino”, explica.
A psicóloga esclarece que o caso é um exemplo de misoginia por tirar das mulheres a condição de pessoas, transformando-as em “objetos de consumo e comparação”. “Também é organizada por envolver um método, uma participação coletiva e validação daqueles que participam do grupo”.
‘Tirei as lésbicas e as gordas’
No grupo onde o conteúdo foi compartilhado, os integrantes faziam diversos comentários sobre a lista. Em um deles, um dos alunos diz: “Tirei as lésbicas e as gordas”. Para Viviane, essa frase apresenta outra camada sobre o episódio.
“Isso confirma que essa violência não atingia todas as mulheres da mesma maneira. Combina misoginia, lesbofobia e gordofobia”, diz a psicóloga.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/B/Q/qOPOnCTTu57IqZURhyxg/edicao-g1-agenda-39-.png)
Diferença entre misoginia e machismo
Os conceitos de misoginia e machismo estão relacionados, mas Viviane destaca que são diferentes. Nas definições apresentadas pela psicóloga:
- Misoginia – desprezo, aversão ou hostilidade dirigida às mulheres pelo fato de serem mulheres.
- Machismo – sistema de ideias, valores e práticas que atribui aos homens uma posição de superioridade e distribui de maneira desigual o poder, a autoridade e a liberdade entre homens e mulheres.
“A misoginia é uma das formas pelas quais essa ordem machista é protegida e colocada em funcionamento. Ela aparece, principalmente, quando as mulheres são hostilizadas, humilhadas e punidas por não ocuparem o lugar que se espera delas. O machismo estabelece uma hierarquia entre homens e mulheres, enquanto a misoginia atua para punir e vigiar as mulheres dentro dessa hierarquia”, esclarece.
A psicóloga pontua, ainda, que a misoginia não aparece apenas quando alguém declara ódio explícito às mulheres. “Ela se manifesta em práticas de humilhação, objetificação, controle, intimidação e violência”.
Internet e movimento ‘red pill‘
Seja em redes sociais, plataformas de vídeos ou aplicativos de mensagens, a misoginia tem ganhado espaço e coro na internet. Para a psicóloga e coordenadora do NEGDS da UFSCar, o ambiente virtual produz uma sensação de segurança e impunidade aos agressores.
“As plataformas oferecem rapidez, grande alcance e a possibilidade de repetição, então, quando há uma fotografia ou uma ofensa, elas podem ser copiadas e compartilhadas inúmeras vezes e o dano continua mesmo depois que o conteúdo original é apagado. Isso é muito sério”, complementa.
Essa possibilidade de repetição, segundo Viviane, vai radicalizando a violência contra as mulheres. “Os algoritmos agravam o problema, pois conteúdos que provocam indignação e medo costumam gerar muito engajamento. Portanto, a misoginia que já existe na sociedade encontra, no ambiente digital, modos mais eficientes de organização, amplificação e permanência”.
É justamente na internet que percebemos o crescimento do movimento conhecido como “red pill”, que propaga teorias e preconceitos direcionados às mulheres. A psicóloga analisa que esses discursos dizem aos homens, especialmente aos mais jovens, que a culpa pelas frustrações amorosas, profissionais e sexuais seria das mulheres.
“Esse discurso cresce como uma reação às conquistas feministas. À medida que as mulheres ampliam a autonomia, recusam relações abusivas e questionam os privilégios masculinos, alguns homens experimentam a igualdade como uma perda de direitos. O movimento ‘red pill’ transforma esse ressentimento em identidade coletiva”, declara Viviane.
Tipificação
No Brasil, a misoginia ainda não é tipificada como crime. Um projeto, já aprovado no Senado e enviado à Câmara dos Deputados para votação, propõe enquadrar a aversão e o discurso de ódio às mulheres como preconceito ou discriminação.
Ao analisar o caso do “ranking” sexual que expôs as universitárias, a advogada familiarista Renata De Vito, de Presidente Prudente (SP), discorre sobre as possibilidades de responsabilização dos suspeitos após as investigações policiais e considerando uma ausência de tipificação para a misoginia.
“Provando a culpa dos possíveis agressores, esse caso poderia entrar como importunação sexual, que é uma lei que já existe; talvez a Lei Carolina Dieckmann, considerando a exposição das fotos e o fato de que elas (as alunas) estão sendo faladas como se estivessem nuas nas imagens; uso indevido de imagem, pois eles captaram as fotos nas redes sociais sem autorização; e, obviamente, calúnia, difamação e injúria”, pontua.
A advogada também comenta sobre a atitude de algumas pessoas de tentarem minimizar o teor sexual da exposição à qual as alunas foram expostas. “É um ranking sexual, foram coletadas fotos nas redes sociais. Então, houve todo um trabalho, não foi uma brincadeirinha. Foi algo organizado e em termos que eu prefiro nem repetir”.
Renata fala, por fim, dos trabalhos de apuração da polícia após as denúncias das vítimas. “Se for provado e se os agressores forem identificados, vai ser analisado qual foi o ato de cada um, quem deu a ideia, quem fez o grupo, quem colheu as fotos e como isso foi organizado entre eles”, finaliza a advogada.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/h/E/RkQYaNSiW324xk06dZUg/edicao-g1-agenda-40-.png)
Fonte: Erick Rodrigues, g1 Presidente Prudente e Região – 26/08/2026




